Cognição Sem Fronteiras: A Mente para Além do Cérebro

Sou psicólogo clínico vocacionado. Sempre busquei interagir com meus pacientes como parte de uma díade: Para mim, a relação terapêutica tem um pouco de amizade e outro de parentalidade — sem se confundir com nenhuma das duas coisas.

A mente não é o mero trabalho de cérebros isolados, mas de pessoas inteiras. Uma pessoa é um ser corporal, com necessidades corporais; pensa, sente e age de modo contextualizado em sua história e nos ambientes imediatos que habitualmente visita, em sua trajetória pelo mundo. A relação terapêutica é só mais um contexto, para onde ela leva previsões que traz de sua experiência prévia — incluindo a forma como representa a si mesma, ao tempo-espaço e aos demais — noções únicas com que enriquecerá nossa conversa.

Uma relação terapêutica tem sua própria mente, se é construída da maneira certa. Tal como qualquer outra relação, como veremos adiante. Mas, antes, deixa eu te dar um pouquinho de contexto, do meu universo mental.

Desde minha longa incursão pelo psicodrama nos anos 90, eu penso em pessoas como agentes, e não seres passivamente moldados pelas contingências de uma vida. Essa visão se alinha bastante com a abordagem do Processamento Preditivo (PP), que traz uma perspectiva inovadora para a compreensão da mente humana, ampliando o olhar para além do cérebro.

Durante algum tempo, defini meu trabalho como Análise do Comportamento, na esperança vã de que isso me faria mais eficaz na clínica. Após um curso de Terapia Cognitivo-Comportamental(TCC), deparei-me com o livro recém-publicado (na época) de Lisa Feldman Barrett, How Emotions Are Made: The Secret Life Of The Brain e isso me causou o que se pode chamar de uma epifania intelectual.

Após todo o périplo, que começou com um interesse em psicologia humanista, derivou para o psicodrama, passou pela árida Análise do Comportamento (que curiosamente coincidiu com minha leitura da obra de Carl Gustav Jung) e desembocou na TCC e por último em uma Terapia Integrativa de Base Cognitiva, sinto-me dando uma volta completa ao velho psicodrama, não como prática clínica, mas como compreensão do ser humano através de sua dimensão gregária, e enraizada em seu contexto e sua história.

A visão de cognição que apresento aqui reflete esse ponto de chegada, pois apresenta uma visão ampla de cognição, com um périplo que cruza o caminho de várias escolas e autores nessa reformulação radical do conceito. Aqui, trago uma breve genealogia dessas ideias, e ao final, irei integrá-las com o arcabouço teórico do PP.

Cognição Distribuída: Somos parte da mente do mundo

Esta idéia, apesar de soar muito nova era, na verdade é embasada em estudos sólidos sobre colaboração humana. Ela tem raízes na obra de Lev Vygotsky(1896 – 1934), o psicólogo soviético, que introduziu a ideia de que a cognição é mediada socialmente, e que o desenvolvimento cognitivo ocorre através de interações sociais. Ele sugeriu que ferramentas simbólicas, como a linguagem, atuam como mediadores entre o indivíduo e o mundo.

Em 1943, menos de uma década após Pensamento e Linguagem, de Vygotsky, mas nos EUA, Herbert Simon e Allan Newell, Cientistas Cognitivos e Matemáticos, desenvolvem um modelo computacional da mente humana, o que vai abrir as portas para a idéia de que a cognição poderia ser representada em sistemas, e, posteriormente, distribuída entre humanos e máquinas.

Entre as décadas de 1950 e 60, a Cibernética de Norbert Wiener e outros cientistas traz a noção de que os sistemas (incluindo na definição organismos e máquinas) regulam-se por meio de feedback e controle. Essa teoria estabeleceu as bases para a idéia de que a cognição é um sistema interconectado de trocas de informação, influenciando a ideia de amplos sistemas cognitivos.

Já nos anos 1970 e 80, Yrjö Engeström, psicólogo finlandês, expande a teoria da atividade, originada com Vygotsky e Leontiev, para mostrar como as atividades humanas são mediadas por artefatos culturais. Ele explica que os indivíduos não atuam isoladamente, mas fazem parte de sistemas de atividades que envolvem ferramentas e contextos culturais.

Em 1988, O cientista cognitivo Donald Norman populariza a ideia de que os objetos ao nosso redor são essenciais para o processo cognitivo, como uma forma de “memória externa” que facilita a realização de tarefas.

Esse conceito de “cognição situada” influencia diretamente Edwin Hutchins, antropólogo e cientista cognitivo, que em 1995 publicou Cognition in the Wild. Hutchins observou comunidades e sistemas humanos em ação, e demonstrou como o processo cognitivo não se limita ao cérebro, em vez disso espalhando-se por entre os indivíduos e o ambiente.

O estudo de Hutchins em um navio de guerra da marinha estadunidense, tinha o objetivo de observar os processos necessários à navegação em um ambiente real para entender como os processos cognitivos eram distribuídos em um contexto de alta complexidade e colaboração.

Ele usou uma abordagem etnográfica, onde ele passou tempo significativo observando a tripulação durante as operações de navegação. Ele focou-se especialmente nas interações da equipe e no uso de ferramentas. Analisou como as tarefas eram realizadas coletivamente, com atenção aos papéis específicos dos membros da tripulação, e como as informações eram transmitidas entre eles e armazenadas em ferramentas externas.

Examinou ainda o uso de mapas, bússolas, cronômetros e outros dispositivos, observando como essas ferramentas permitiam que a tripulação “pensasse” de forma distribuída, com cada membro do grupo contribuindo com parte do conhecimento.

Hutchins observou que a navegação envolvia múltiplas etapas que nenhum membro realizava sozinho. As tarefas estavam divididas entre várias pessoas, como o oficial de navegação, os observadores e os operadores dos instrumentos de cálculo. Observou também a importância da comunicação verbal e não-verbal para sincronizar as ações. Por exemplo, um observador indicava a posição do navio e outro tripulante realizava cálculos com base nessa informação.

O mapa não era apenas uma representação do espaço; ele também servia como memória externa, ajudando os membros a consultar informações precisas a qualquer momento sem sobrecarregar a memória. Ferramentas como a bússola e os cronômetros permitiam realizar cálculos espaciais e temporais.

Por fim, Hutchins descobriu que os erros eram menos comuns quando a tripulação distribuía a responsabilidade e confiava nas informações dos instrumentos, um conceito central à cognição distribuída.

Suas principais conclusões são bastante interessantes. Ele propôs que a navegação era realizada por um “sistema cognitivo” que incluía humanos e artefatos tecnológicos, formando um sistema integrado onde cada elemento – humano ou não – era essencial para a tarefa. Argumentou que os instrumentos e ferramentas são extensões da mente humana, permitindo aos navegadores fazer previsões, resolver problemas e operar de forma confiável.

Os mapas e registros escritos ajudavam a equipe a manter informações importantes sem sobrecarregar a memória individual, um conceito que posteriormente inspirou a teoria da mente estendida. Que também exploraremos neste artigo.

Para a prática da psicologia clínica, isso significa que o mundo em volta de uma pessoa em sofrimento é uma parte essencial deste sofrimento, não apenas como tendo de algum modo causado esse sofrimento, mas colaborando e até mesmo tirando certo proveito dele, para o uso eficiente dos recursos do sistema.

Se vemos a cognição e a emoção como tarefas do corpo centralizadas no cérebro, tanto o “adoecimento” quanto a reabilitação são processos que requerem redes de suporte — não são apenas função de defeitos individuais, quer sejam simbolizados como desequilíbrio químico, uma idéia extremamente controversa, quer sejam moralizados, mesmo, como quando se chama procrastinação de preguiça.

O suporte social e o ambiente físico não são apenas fatores externos, mas parte integral do sistema cognitivo do paciente.

Algumas pessoas estranham que atendo pessoas trazendo, a seu pedido, e a meu encorajamento, parte de seu contexto para a sessão terapêutica. Pessoas autistas entram com suas pessoas de suporte, apenas ficando sozinhas comigo quando assim decidem. É importante tanto elas saberem que podem fazer isso, como também que, a qualquer momento podem desistir de fazê-lo — a terapia, afinal, é delas.

Cognição Estendida: Somos ciborgues naturais

A idéia da cognição extendida tem algumas das mesmas influências citadas na seção anterior, sobre a sua natureza distribuída. Também deriva de Vygotsky e da cibernética de Wiener, bem como da cognição situada, que exploraremos adiante, descrevendo o trabalho de Lucy Suchman, Plans and Situated Actions: The Problem of Human-machine Communication. Ela desafia a visão de que o comportamento é resultado apenas de planejamento interno, sugerindo que o ambiente e as ferramentas têm um papel fundamental no processo cognitivo.

Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch, no começo da década de 1990, propõem que a mente está ligada ao corpo e ao ambiente, enfatizando a cognição como um processo “incorporado”. Essa perspectiva abre caminho para a cognição estendida, ao considerar que a mente não está confinada ao cérebro.

O conceito de cognição estendida foi formalizado por Andy Clark e David Chalmers em 1998, no famoso artigo The Extended Mind. Eles argumentaram que ferramentas externas, como cadernos, dispositivos eletrônicos e até elementos do ambiente, podem ser parte da mente. Para eles, a mente estendida desafia a ideia de que o cérebro é o único centro do processamento cognitivo; em vez disso, ele usa o ambiente como extensão de si, como se fôssemos ciborgues naturais. Clark tem inclusive um livro com este nome: Natural Born Cyborgs, de 2003.

Para a clínica, observo a natureza simbiótica entre certos pacientes e seus dispositivos (bem como a minha). Apesar dessa natureza poder tornar-se desadaptativa e compulsiva, não acredito que o problema esteja nas “telas”, como tem sido elaborado em redes sociais e estudos recentes, que desprezam completamente os conceitos que estou abordando neste artigo. Ele está no uso que se faz dessas ferramentas.

Existem pessoas que têm compulsões baseadas em qualquer atividade prazeirosa, como álcool, outras drogas ilegais, ou mesmo sexo (com ou sem a participação de outras pessoas no processo). Se fosse uma compulsão por masturbação, por exemplo, nenhum clínico iria elaborar a hipótese absurda de que a culpa fosse do órgão sexual do paciente, ou de sua atividade sexual, mas do relacionamento com ele.

No entanto, uma amosta significativa de clínicos têm ido às redes sociais falar mal das “telas” e demonizar ferramentas incríveis, que podem fazer uma pessoa ficar produtivas e satisfeitas consigo para além do que poderíamos sonhar há uma década.

No dia a dia clínico, convivo com pessoas que dependem de tecnologias e sistemas externos para organizar suas vidas e pensar. Pessoalmente, encorajo o uso correto desses dispositivos, enfatizando os riscos da dependência de modo relativo, como se adverte contra o caráter potencialmente compulsivo de qualquer atividade prazeirosa.

Sem essa comprensão de que somos ciborgues naturais, é fácil a medicina assumir um papel “sanitarista”, especialmente num lugar como o Brasil, em que médicos sucumbiram a cultos anticientíficos e pseudocientíficos, como tantos que prescreveram “kits preventivos” tóxicos, ajudando a matar centenas de milhares de pessoas durante a pandemia de COVID-19.

Cognição Incorporada: Somos organismos, não cérebros

Esta idéia também remonta a Lev Vygotsky, que sugere que o desenvolvimento cognitivo ocorre por meio da interação social e do uso de ferramentas culturais, incluindo o corpo como meio de ação no mundo. Embora ele não formule diretamente o conceito de cognição incorporada, sua ênfase no papel da ação e da interação social prepara o terreno para essa ideia.

Mas ela toma corpo mesmo é durante os anos 1960, com Maurice Merleau-Ponty, o filósofo francês, autor de Fenomenologia da Percepção. Ele argumenta que a percepção e a experiência humana são inseparáveis do corpo, sendo o corpo o ponto de referência pelo qual compreendemos o mundo. Ele introduz a ideia de que a cognição é corporal e não pode ser dissociada das experiências corporais, estabelecendo uma base fenomenológica para a cognição incorporada.

Já em 1980, na obra Metaphors We Live By, George Lakoff e Mark Johnson propõem que muitas das nossas construções de pensamento são fundamentadas em metáforas baseadas em experiências corporais. Eles argumentam que o corpo influencia como pensamos e como construímos a linguagem e a cognição, o que estabelece um ponto central para o conceito de cognição incorporada.

No campo da inteligência artificial, Rodney Brooks e outros pesquisadores de IA desafiam o modelo simbólico tradicional ao propor sistemas robóticos baseados em interação direta com o ambiente, sem a necessidade de representações internas complexas. Esses sistemas, chamados de “IA Incorporada”, influenciam as teorias de cognição incorporada ao sugerir que o corpo e o ambiente desempenham um papel crucial no comportamento e na cognição.

Especificamente no campo das ciências cognitivas e do comportamento, o conceito de cognição incorporada começou a ganhar mais força na década de 1990, com Francisco Varela, Evan Thompson e Eleanor Rosch, publicando The Embodied Mind em 1991. Eles introduzem a ideia de que a cognição é inseparável do corpo e do ambiente. Defendem que a mente é enativa, um conceito que exploraremos logo mais, e que o conhecimento emerge da interação entre o corpo e o ambiente, combinando ideias fenomenológicas e biológicas.

Em 1998, Andy Clark e David Chalmers escrevem The Extended Mind, como referi na seção deste artigo que menciona a mente estendida. Embora mais conhecido como o artigo fundacional da mente estendida, esse trabalho influencia a cognição incorporada ao argumentar que a mente pode se estender para fora do cérebro, incorporando ferramentas e interações corporais. Clark e Chalmers sugerem que o corpo e o ambiente ampliam o escopo da cognição.

O livro de Shaun Gallagher, How the Body Shapes the Mind, em 2005, explora como o corpo molda o processamento mental e e a construção de significado, argumentando que a cognição é mediada pelo corpo. Ele introduz o conceito de “corpo como esquema de ação”, explicando que a forma do corpo humano determina nossa percepção e cognição, fortalecendo a base para uma cognição corporificada.

Mesmo Karl Friston, um dos maiores neurocientistas da atualidade, que escreveu o artigo seminal The Free-energy Principle: A Unified Brain Theory? em 2010, propôs que o cérebro minimiza a surpresa por meio de previsões e correções de erro, um processo em que o corpo e suas interações com o ambiente são essenciais. Embora seu foco seja a previsão, ele argumenta que o corpo influencia diretamente os modelos internos, conectando cognição preditiva e incorporada.

Na clínica, essa perspectiva é essencial. Os sintomas de ansiedade e estresse trazem uma dimensão física que é considerada cada vez mais essencial no tratamento. Em termos de Processamento Preditivo, o corpo fornece feedback contínuo ao cérebro, formando o que Karl Friston chama de “orçamento preditivo”. Esse orçamento corporal, que envolve o estado fisiológico do corpo, influencia as previsões do cérebro sobre o que está acontecendo no ambiente.

Frequentemente, sugerimos exercícios físicos como atividades de apoio no tratamento da ansiedade, para facilitar a flexibilização do pensamento e das emoções, usando as metáforas do corpo como parte da atividade mental.

Cognição Situada: Tudo que sentimos, pensamos e fazemos tem história, contexto e lugar

A noção de cognição situada foi formalizada nos anos 1980 e 1990, particularmente nas obras de Lucy Suchman, que publicou Plans and Situated Actions em 1987. Suchman argumentou que a cognição deve ser compreendida no contexto imediato em que ocorre, pois o ambiente influencia diretamente a ação e a interpretação. Na visão de Suchman, o conhecimento não é apenas uma abstração interna, mas é construído e moldado pela interação com o mundo ao redor.

Na prática clínica, é necessário considerar o contexto social e cultural do paciente. Um comportamento, pensamento ou emoção só faz sentido completo dentro do ambiente onde o paciente vive e da história que ele carrega. Essas variáveis são, em termos de PP, influências constantes nas previsões do cérebro, ajudando a moldar como o paciente interpreta e reage ao mundo.

Como disse Somerset Maughan, romancista britânico (1874-1965), em seu romance O Fio da Navalha, um dos livros de grande impacto na minha formação,

Pois homens não são apenas eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos que brincaram quando eram crianças, as lendas que ouviam dos mais velhos, a comida que se alimentaram, as escolas de que frequentaram, os esportes de que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditavam. Todas essas coisas fizeram deles o que são e essas coisas ninguém pode conhecê-las somente por ouvir dizer, e sim se as tiver sentido.

Tudo isso já era verdade para artistas e poetas. Meu compromisso é com uma ciência que traz suas influências culturais agarradas ao peito. Desprezo a frieza do positivismo irrefletido: ela é inadequada até na ciência das coisas inanimadas, que dirá na relação com as vivas.

Cognição Enativa: Somos agentes, não seres passivos

A cognição enativa, ou enaçionismo, foi proposta por Francisco Varela e colaboradores, no livro The Embodied Mind (1991), que citei na última seção. Varela e seus colegas sugeriram que a cognição é uma atividade que emerge de interações dinâmicas entre o organismo e seu ambiente. Ao contrário das visões que colocam o cérebro como receptor passivo de estímulos, o enaçionismo enfatiza o papel ativo do organismo em moldar seu mundo, sugerindo que a percepção é uma construção ativa, não uma recepção passiva.

E em 2017, em um livro que “ouvi” (sou assinante audible, desde 2010, quando ainda nem tinha chegado no Brasil) logo que foi lançado, How Emotions are Made: The Secret Life of the Brain, Lisa Feldman Barrett argumenta que as emoções são construídas a partir da interação entre corpo e ambiente. Ela sustenta que a cognição emocional é incorporada e se desenvolve com base nas experiências corporais e nas previsões do cérebro sobre o corpo, complementando a cognição incorporada com o aspecto emocional.

Na minha prática clínica, toda essa jornada de leitura e prática, fez com que meu périplo intelectual, iniciado com o psicodrama, com ele se congraçasse novamente, ainda que com a plena consciência de que sua técnica possa não ser sempre adequada ao meu público-alvo (adolescentes e adultos autistas). Vejo meus pacientes como protagonistas, e não como meros resultados da estimulação ambiental.

Por este motivo, jamais consegui ser um behaviorista “puro”. Fui acusado disso uma vez, por um behaviorista que abomino visceralmente, e achei inusitado como os inimigos às vezes nos descrevem bem.

A cognição enativa destaca o papel das pessoas em moldar ativamente sua experiência de mundo, com muito mais responsabilidade do que como tendo sido “programados” ou sujeitos passivos em quem se “aplica” ABA.

Em termos de Processamento Preditivo, isso desemboca na Inferência Ativa: o cérebro não reage, ele toma iniciativa desde a sua formação embrionária para reduzir as discrepâncias entre suas previsões e a realidade, colocando o paciente como um agente de sua própria experiência.

Um velho companheiro de jornada, Wanderley Gradela, no Facebook, me lembrou desse paralelo com o papel ativo do bebê no nascimento, conforme dizia Moreno, e eu mesmo, que sempre me identifiquei com seu temperamento fortemente intuitivo, o que caracteriza muita gente com TDAH.


Integração com o Processamento Preditivo

À primeira vista, esta visão multifacetada da cognição está em contradição com um arcabouço como o PP, que repousa pesadamente na pressuposição de representações simbólicas, aparentemente fundamentadas na hipótese do cérebro como um computador, criticada precisamente por autores como Varela e Maturana, que acreditavam que máquinas e cérebros eram coisas muito diferentes, bem como que cognição era um processo muito mais complexo e multifacetado, e que confiná-lo ao cérebro era mero reducionismo. E isso tudo é verdade.

Karl Friston, no entanto, baseia-se no conceito de autopoiese, de autoria de Varela e Maturana (no livro De Máquinas e Seres Vivos, de 1972), dentre outros, em seu artigo seminal de 2010, The Free-energy Principle: A Unified Brain Theory?, formalizando matematica e conceitualmente a ideia, que remonta a Kant e Helmholtz, de que o cérebro é um órgão preditivo.

Ele enfatiza que o cérebro está continuamente tentando minimizar a surpresa, ao antecipar e ajustar-se continuamente ao ambiente. Não se limita ao cérebro isolado, mas estende-se através do corpo e do ambiente, formando um sistema de interação contínua com o mundo.

A controvérsia entre essas idéias geroum um interessante livro, mais recente, em 2022, Andy Clark and His Critics, uma coletânea organizada por Giovanna Colombetti e Danilo Palmieri, onde confrontam o filósofo britânico Andy Clark, que nunca pensou nessas abordagens como antagônicas, e elaborou diversas respostas argumentando a favor de uma visão integrativa entre elas, como seus livros de 2016 (Surfing Uncertainty: Prediction, Action, and the Embodied Mind.) e 2023( The Experience Machine: How Our Minds Predict and Shape Reality).

Dentro do arcabouço teórico do Processamento Preditivo, estas cinco perspectivas da cognição – distribuída, estendida, incorporada, situada e enativa – encontram um encaixe que considero bastante natural:

  • Distribuída: O cérebro usa redes de suporte e contextos sociais como parte de seu sistema preditivo, o que reforça a ideia de uma mente distribuída no ambiente.
  • Estendida: Tecnologias e ferramentas externas se integram às previsões do cérebro, influenciando e informando o sistema cognitivo, tornando-se assim, indissociáveis dele.
  • Incorporada: O corpo está sempre elaborando e corrigindo um orçamento preditivo, através da oscilação entre interocepção e exterocepção. Sensações e estados fisiológicos são integrados a ferramentas e outras pessoas, para a correção contínua das previsões do cérebro.
  • Situada: O contexto histórico, social e cultural das pessoas são informações valiosas para ajustar previsões e interpretar o mundo, ancorando a cognição na realidade específica de cada indivíduo, fazendo de cada experiência, uma jornada única e irrepetível.
  • Enativa: A Inferência Ativa representa o organismo como um agente, criando continuamente seu próprio ambiente cognitivo, de modo mais ou menos consciente, e atuando para alinhar suas previsões e reduzir discrepâncias em relação às entradas sensoriais que filtra do mundo sensível.

Essas perspectivas ampliam consideravelmente o escopo do que consideramos “mente” e “cognição” no trabalho clínico. No consultório, adoto essa visão para entender o ser humano como uma rede integrada e dinâmica, onde cérebro, corpo e ambiente se unem em sistemas adaptativos combinados, estendidos e concêntricos.

A cada pessoa que conheço na clínica, reforça-se a minha crença, de que a mente não é apenas o trabalho do cérebro: Estende-se para o corpo, para o entorno imediato habitual, ferramentas e objetos pessoais, bem como pessoas de apoio, e para a própria história do paciente.

Essa perspectiva me lembra diariamente que não estou consertando pessoas com psicoterapia. Pessoas não são máquinas. Pessoas são bestas preditivas únicas, cada uma delas é um universo a ser mapeado para que possa mudar o que lhe causa sofrimento, e assim, contemplar com alegria e contentamento o milagre de estar vivo, e testemunhar o universo a partir dessas regiões do universo capazes de contemplar a si mesmas, que somos nós, seres vivos.


Bibliografia

  • VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. Moscou: [Publicação original em russo], 1934. (Traduzido para o inglês: Thought and Language, Cambridge, MA: MIT Press, 1962).
  • MAUGHAM, Somerset. O fio da navalha. Tradução de Monteiro Lobato. São Paulo: Globo, 1945.
  • WIENER, N. Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine. Cambridge, MA: MIT Press, 1948.
  • MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. De máquinas e seres vivos: uma teoria sobre a organização biológica. Santiago: Editorial Universitaria, 1972.
  • SIMON, H. A.; NEWELL, A. Human Problem Solving. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1972.
  • SUCHMAN, L. Plans and Situated Actions: The Problem of Human-machine Communication. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.
  • ENGESTRÖM, Y. Learning by Expanding: An Activity-Theoretical Approach to Developmental Research. Helsinki: Orienta-Konsultit, 1987.
  • NORMAN, D. A. The Psychology of Everyday Things. New York: Basic Books, 1988.
  • VARELA, F.; THOMPSON, E.; ROSCH, E. The Embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience. Cambridge, MA: MIT Press, 1991.
  • HUTCHINS, E. Cognition in the Wild. Cambridge, MA: MIT Press, 1995.
  • CLARK, A.; CHALMERS, D. The Extended Mind. Analysis, v. 58, n. 1, p. 7–19, 1998.
  • CLARK, A. Natural-Born Cyborgs: Minds, Technologies, and the Future of Human Intelligence. Oxford: Oxford University Press, 2003.
  • GALLAGHER, S. How the Body Shapes the Mind. Oxford: Oxford University Press, 2005.
  • FRISTON, K. The Free-energy Principle: A Unified Brain Theory? Nature Reviews Neuroscience, v. 11, n. 2, p. 127-138, 2010.
  • CLARK, Andy. Surfing Uncertainty: Prediction, Action, and the Embodied Mind. New York: Oxford University Press, 2016.
  • BARRETT, L. F. How Emotions are Made: The Secret Life of the Brain. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2017.
  • COLOMBETTI, Giovanna; PALMIERI, Danilo (Orgs.). Andy Clark and His Critics. New York: Oxford University Press, 2022.
  • CLARK, Andy. The Experience Machine: How Our Minds Predict and Shape Reality. New York: Pantheon, 2023.

9 respostas para “Cognição Sem Fronteiras: A Mente para Além do Cérebro”.

  1. Avatar de Cláudia Rodrigues
    Cláudia Rodrigues

    Num mundo de interações que está cada vez mais distante do ideal. Estruturas familiares fragilizadas, ambiente socioeconômico em vulnerabilidade, exclusão social, ausência de políticas públicas para saúde em nível integrativo… Expandir as possibilidades terapêuticas, me faz viajar a um universo de esperança. Mas quando olho para a minha realidade e circunstâncias, me pergunto se é um sonho possível. (Observação:Opinião particular desprovida de qualquer conhecimento científico!) ass. Mãe Atípica Exausta.

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    1. Avatar de Alexandre Costa

      Ideal é uma coisa muito plural. O ideal de um tantas vezes foi a distopia do outro, né. Claudinha?

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      1. Avatar de Cláudia Rodrigues
        Cláudia Rodrigues

        Tem razão. Troco por: distante do básico. Apoio, cuidado…

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  2. Avatar de Luis Reis
    Luis Reis

    Parabéns pelo belo texto! Considerar pessoas como universos a serem mapeados é uma excelente definição de psicoterapia. E essa abordagem integrada das várias dimensões do humano é sem dúvida um avanço em relação à velha visão atomizada e individualista de ciência.

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    1. Avatar de Alexandre Costa

      Obrigado pela leitura e pelos comentários elogiosos. De fato, somos ao mesmo tempo nós de uma rede maior que nós, e ecossistema rico, densamente habitado, universos literalmente fervilhando de vida!

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  3. Avatar de Memória e Identidade: criamos histórias, e elas nos criam de volta. – Psicologia Clínica de Fundamentação Neurocognitiva

    […] atingir os objetivos do processo. No contexto de uma relação terapêutica, surge o que chamamosde mente distribuída — uma “consciência compartilhada” que nos possibilita revisitar e reinterpretar […]

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  4. Avatar de A Verdade Por Trás do Sucesso da ABA – Psicologia Clínica de Fundamentação Neurocognitiva

    […] a melhor pessoa para desenhar intervenções, neste modelo. Mas e se considerarmos o contexo, numa visão mais 4E da cognição? Muito complicado. Mais difícil de vender. Mas será que é menos científico por […]

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  5. Avatar de Uma Revolução Silenciosa da Psicologia: Construindo Pontes com a Cognição 4E e o Processamento Preditivo – Psicologia Clínica de Fundamentação Neurocognitiva

    […] A cognição 4E propõe que a mente não pode ser separada do corpo e do ambiente. Ela desafia a visão tradicional de que a cognição é puramente interna, argumentando que é embutida no contexto físico e social, estendida para além do cérebro e enativa, ou seja, moldada pela interação dinâmica com o mundo. Por outro lado, o Processamento Preditivo (PP), descreve o cérebro como uma máquina de previsões, que constantemente ajusta seus modelos internos para minimizar erros preditivos com base no feedback sensorial. […]

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  6. Avatar de Princípio da Energia Livre: Uma Nova Perspectiva da Cognição – Psicologia Clínica de Fundamentação Neurocognitiva

    […] teorias que compreendem a mente como um sistema que se estende para além da atividade cerebral, a Cognição 4E7 (“The Oxford Handbook of 4E Cognition,” 2018), costuma enfatizar a importância do corpo e do […]

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Sou Alexandre Costa

A imagem mostra um homem com uma longa barba grisalha e cabelo curto, usando óculos e uma camisa preta com o logotipo "Calvin Klein Jeans" estampado no peito. Ele está em um ambiente externo, com uma árvore grande e galhos densos ao fundo. A iluminação natural destaca o rosto e os detalhes da barba, criando uma atmosfera tranquila e natural. A expressão facial é neutra, transmitindo uma aparência calma e acolhedora. No canto inferior direito, há uma marcação de data e hora: "17 de jul. de 2024, 17:26."

Psicólogo Clínico especializado em autistas adultos, Supervisor Clínico Institucional da Casa da Esperança com mais de 30 anos de experiência com pessoas autistas de todos os nós do espectro.