Memória e Identidade: criamos histórias, e elas nos criam de volta.

Estamos plantados num chão de histórias, e nossas flores são mais histórias.

Este artigo revisita um tema que já abordei no passado, com menor profundidade com que o faço aqui: o papel das histórias na construção da identidade. Em Ficção e Realidade, examinei como verdade e ficção se entrelaçam nas narrativas pessoais, onde memória e percepção se mesclam, escrevendo-nos como a um personagem.

Hoje, inspirado pela leitura do livro Storytelling and the Sciences of Mind1, de David Herman, volto ao assunto para aprofundar a reflexão sobre as nossas histórias, tanto as que contamos sobre nós mesmos, como as que ouvimos contar a nosso respeito.

Elas nascem no contexto dos papéis sociais que desempenhamos, através da língua que falamos, que se enraíza numa cultura e que, por sua vez, se expande para a longa noite do tempo, o passado comum da nossa espécie, ainda vastamente inexplorado.

As histórias que nos criam, e as que criamos, não apenas nos representam: São a parte mais importante de quem somos. Sem elas, não nos reconheceríamos.

A memória vai muito além do simples armazenamento e recordação de eventos passados, como um computador grava seus arquivos, por exemplo. Ela é um conjunto de processos ativos, moldado pela necessidade, pessoal e social, de coerência, pautada pelo concerto dos cérebros, numa dança incessante que não admite lacunas de significado: o fato se torna mítico, quando é instrumental para gerar previsões eficientes e eficazes. Ou como diz Jacob Levy Moreno2,

Um poema invoca uma centena de atos heróicos.

Nossa história pessoal é cria de uma espécie de “seleção natural” narrativa, onde as memórias e experiências mais significativas são contadas repetidamente, ao longo de nossa vida, a diferentes pessoas, ou a nós mesmos, como quando escrevemos um diário. A cada recontagem, a história se modifica e se enriquece, como se ganhasse vida própria.

O objetivo deste artigo é explorar como essa seleção narrativa constrói nossa identidade de maneira contínua e adaptativa. Examinarei o papel da narrativa na escolha das memórias que persistem, na reconstrução da identidade a cada novo contexto, e na ressignificação que ocorre, derivada de nossos vínculos, sejam eles terapêuticos, ou destrutivos.

“Seleção Natural” Narrativa e Valor Preditivo

A seleção das histórias que contamos sobre nós mesmos segue uma espécie de “seleção natural” narrativa. Memórias que trazem valor preditivo – ou seja, que nos ajudam a prever e interpretar o mundo de modo consistente com o que já sabemos – têm maior chance de serem repetidas, de se tornarem nós.

E não estou me referindo a uma utilidade prática imediata, como um sucedâneo skinneriano. Não se trata de estímulo-resposta. Trata-se da confiança em um significado estabelecido. Traduz-se na capacidade dessas histórias de oferecer a sensação de coerência e continuidade que caracteriza as melhores previsões de nossos cérebros acerca da realidade sensível, em um mundo incerto.

A escolha de quais histórias sobrevivem a esta poda simbólica é quase completamente inconsciente. Boa parte delas ficam implicadas nas nossas ações e emoções, e só são lembradas, quando o são, na presença de parte do contexto a elas associado.

As histórias que lembramos, se destacaram porque fazem sentido, porque dialogam bem com a visão de mundo que vamos construindo ao longo da vida, produzindo previsões confiáveis. E as que esquecemos, se destacaram pelo contrário disso, por não conseguirmos interpretá-las de modo confiante. Então, o ideal é que só as lembremos se ou quando o possamos fazê-lo com segurança.

Todo esse processo, largamente ficcional, por sua vez, está intimamente entrelaçado com a linguagem e a cultura em que foi coletivamente gestado.

As lembranças que persistem são aquelas que dão suporte a uma narrativa interna estável, mesmo que o custo dessa estabilidade seja pago em exatidão: algumas reinterpretações ou ajustes precisam ser feitos, ao longo do tempo. O que recordamos, então, não é um arquivo intacto de eventos, mas um conjunto de experiências que foram moldadas para se ajustarem a como contamos a nossa história.

E os contextos sociais que habitamos jogam seu papel nessa seleção também. As histórias mais repetidas sobre nós são aquelas que reforçam nossa identidade. No fim, nossa memória é um mosaico que cumpre a função de nos manter coerentes, tanto para nós mesmos quanto para aqueles com quem convivemos. Quando este processo falha, a gente sofre, e/ou faz sofrer. E, a partir do sofrimento, precisamos recontar essas histórias.

Recontando-se. Refazend0-se.

A memória não é formada por aquivos estáticos; Ela é fluida. Quando narramos nossa história para uma pessoa — especialmente um outro significativo — alguém a quem amamos ou odiamos, ajustamos detalhes, enfatizamos momentos, cortamos o que não faz sentido. A história que a gente conta molda-se às nossas percepções e às necessidades do momento, e cada contexto, cada interlocutor, influencia a forma como lembramos.

Não que façamos isso conscientemente. Quando isso acontece, estamos simplesmente mentindo. Não é disso que estou falando. Estou falando de quando você tem certeza de que algo aconteceu, e alguém que esteve com você no mesmo lugar e tempo, conta uma história muito diferente.

Experimentos com falsas memórias demonstram o quanto o cérebro preenche lacunas ou ajusta detalhes, quando precisa. Em um estudo conduzido por Wade e colaboradores em 20023, adultos foram expostos a fotos que mostravam um passeio de balão de ar quente, supostamente realizado durante sua infância. Muitos deles, ao verem as imagens, começaram a “lembrar” de detalhes vívidos de um passeio que, na realidade, nunca aconteceu. Esse efeito, conhecido como “memória implantada”, demonstra como a nossa identidade e história pessoal podem ser moldadas por sugestões externas.

Esta inclusive é uma técnica que tem sido utilizada à exaustão pela extrema direita, visando a formação de seitas e subseitas interligadas, cujos interesses, inclusive são conflitantes (como cristãos evangélicos e judeus sionistas, por exemplo), unidos pela noção de que são harmônicos entre si, noção esta intencionalmente implantada por uma liderança mal intencionada, sob forte proteção dos vieses egóicos e das identidades de grupo.

Outro exemplo da falibilidade e fragilidade da memória é o experimento conduzido pelo psicólogo Hugo Münsterberg4 em 1908, Göttingen, uma cidade localizada no estado da Baixa Saxônia, na Alemanha, durante uma reunião de juristas, psicólogos e médicos. Em um momento deste evento, um palhaço em traje colorido irrompeu na sala, seguido por um homem negro armado com um revólver. No centro do salão, ambos gritaram frases sem sentido; um caiu no chão enquanto o outro pulava sobre ele, e um tiro foi disparado antes de ambos saírem rapidamente. O evento durou menos de vinte segundos, pegando todos de surpresa.

Ao final, os presentes, sem saber que tudo havia sido encenado, foram convidados a relatar o que viram. Dos quarenta relatos recolhidos, apenas um conseguiu captar mais de oitenta por cento dos detalhes; catorze omitiram de vinte a quarenta por cento, doze omitiram de quarenta a cinquenta por cento, e treze omitiram mais de cinquenta por cento. Esse experimento evidenciou a fragilidade e a imprecisão da memória, mesmo de eventos curtos e marcantes (MÜNSTERBERG, 1908, p. 50)5.

Em outro experimento, realizado logo após a explosão do ônibus espacial Challenger, o psicólogo Ulrich Neisser6 investigou a precisão da memória em eventos marcantes. Uma pergunta que frequentemente se faz é “onde você estava quando as torres do World Trade Center caíram, 2001″. Neisser teve essa idéia no dia da explosão, demonstrando sua enorme presença de espírito.

No dia seguinte à tragédia, Neisser pediu que seus alunos de psicologia escrevessem um relato detalhado sobre como souberam da notícia, onde estavam, e como havia sido sua reação. Anos depois, esses mesmos estudantes foram convidados a recontar o evento. Os novos relatos mostraram discrepâncias significativas em relação às memórias registradas originalmente.

O mais inusitado é que os estudantes expressavam descrença em seus relatos iniciais,  preferindo apegar-se às memórias posteriores, obviamente menos factuais do que as relatadas no dia seguinte à tragédia da Challenger. Esse experimento demonstrou essa plasticidade da memória: cada presente parece engendrar o seu passado. 7

Esses exemplos pintam o quadro de uma memória dinâmica, sujeita a influências externas e reinterpretações internas. A identidade, portanto, cujo pilar fundamental é a memória, é um mosaico de ajustes contínuos, em função de como representamos a nós mesmos e ao nosso entorno, de acordo às nossas crenças centrais, ou às previsões mais estáveis de nossos cérebros.

Mudar é possível, então…

Não só possível, como inevitável. A identidade é constantemente reconstruída. O “eu” que nos define não é um arquivo de memórias fixas, mas um processo em revisão contínua, que se ajusta conforme vamos vivendo, reinterpretando e recontando nossas histórias pelo caminhjo da vida. Cada nova versão da nossa autobiografia interior reforça o nosso conjunto atual de crenças, e omite o que não se encaixa. E é assim que descobrimos quem somos: um amontoado de fragmentos reordenados que servem mais para dar coerência ao presente, do que precisão ao passado.

Essa constante revisão do eu tem raízes em processos cognitivos profundos. Estudos de Elizabeth Loftus (LOFTUS, 2005) e Ulrich Neisser (NEISSER; HARSCH, 1992) sugerem que, quando recontarmos uma história, a memória vai se adaptando ao contexto emocional e social, ajustando-se às nossas necessidades e ao ambiente. Daniel Schacter (SCHACTER, 2001) aprofundou essa ideia, ao descrever os “pecados da memória”. A sugestionabilidade e a interferência de outras pessoas fazem com que nossas lembranças se alterem ao longo de nossa vida.

O “eu” é um fenômeno dinâmico. Narrando nossa própria história, vamos criando versões mais funcionais de quem somos, reafirmando crenças a cada recontagem para ajustar expectativas e ir redefinindo nossos papéis na vida.

Ressignificação como reescrita

Contar nossas histórias a um psicoterapeuta é mais do que ser validado como pessoa, ou reafirmado em sua identidade. A psicoterapia pode abrir caminho para uma ressignificação colaborativa, onde terapeuta e paciente unem suas inteligências para atingir os objetivos do processo. No contexto de uma relação terapêutica, surge o que chamamosde mente distribuída — uma “consciência compartilhada” que nos possibilita revisitar e reinterpretar nossas narrativas com uma profundidade que, sozinhos, dificilmente alcançaríamos.

A relação entre terapeuta e paciente tira proveito dessa capacidade colabnorativa, tornando-se uma “mente coletiva”, dotada de uma perspectiva única que emerge das vivências de todos os envolvidos (quando é uma terapia em grupo) em prol da ressignificação de vivências traumáticas, ou da compreensão dos eventos absurdos da vida, como a perda de entes queridos, ou o fim de um relacionamento muito definidor.

A esta altura devo informar aos positivistas de plantão que estamos em terreno metafórico desde o começo deste artigo. A própria expressão “mente distribuída” é uma metáfora. Como Lisa Feldman Barrett lembra em 7 and 1/2 Lessons About the Brain, pouca coisa que dizemos sobre cognição, emoção e comportamento deixa de ser metafórico.

A única coisa concreta sobre nós e nosso cérebro é ele é matéria coloidal, de textura semelhante ao mingau frio, e compõe-se de circuitos biológicos que se comunicam através de impulsos elétricos e reações químicas. No entanto, é a partir dessas trocas, e da linguagem que usamos para descrevê-las, que criamos significados e possibilidades reais de transformação.

No contexto do vínculo terapêutico, o terapeuta não é apenas um ouvinte, mas um colaborador ativo para a reescrita da história pessoal do paciente. Ele contribui com sua própria experiência e intuição, através de formulações e perguntas que, cuidadosamente, reorganizam a narrativa e ampliam as possibilidades de interpretação dos eventos vividos. Esse processo engendra uma narrativa enriquecida, onde o paciente é encorajado a protagonizar e reescrever sua história.

Este processo implica em autoconhecimento, na percepção de autoeficácia e na melhoria da autoimagem do paciente. Através da colaboração terapêutica, nos damos conta de que nunca estivemos sós nessa elaboração, e que as vozes interiores, internalizadas e fusionadas como “nosso pensamento” são ecos de pessoas reais que nos reduziram a ser meros resultados, meros coadjuvantes de nossa história. Constatando isso, podemos escolher nos tornar autores, diretores e protagonistas no palco de nossa própria vida.

Bibliografia

  • BARRETT, Lisa Feldman. Seven and a Half Lessons About the Brain. New York: Houghton Mifflin Harcourt, 2020.
  • HERMAN, David. Storytelling and the Sciences of Mind. Cambridge, MA: MIT Press, 2013.
  • ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Hugo Münsterberg. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Hugo-Munsterberg. Acesso em: 10 nov. 2024.
  • LOFTUS, Elizabeth F.; PICKRELL, Jacqueline E. The formation of false memories. Psychiatric Annals, v. 25, n. 12, p. 720-725, 1995.
  • LOFTUS, Elizabeth F. Planting misinformation in the human mind: A 30-year investigation of the malleability of memory. Learning & Memory, v. 12, n. 4, p. 361-366, 2005.
  • MARINEAU, René F. Jacob Levy Moreno: 1889-1974: Pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo. Tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. São Paulo: Editora Ágora, 1993.
  • MÜNSTERBERG, Hugo. On the witness stand: Essays on psychology and crime. New York: McClure, 1908.
  • NEISSER, Ulrich; HARSCH, Nicole. Phantom flashbulbs: False recollections of hearing the news about Challenger. In: WINOGRAD, E.; NEISSER, U. (Eds.). Affect and Accuracy in Recall: Studies of “Flashbulb” Memories. New York: Cambridge University Press, 1992. p. 9-31.
  • SCHACTER, Daniel L. The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers. Boston: Houghton Mifflin, 2001.
  • WIKIPEDIA. Ulric Neisser. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ulric_Neisser. Acesso em: 10 nov. 2024.
  • WADE, Kimberley A.; GARRY, Maryanne; READ, J. Don; LINDSAY, D. Stephen. A picture is worth a thousand lies: Using false photographs to create false childhood memories. Psychonomic Bulletin & Review, v. 9, n. 3, p. 597-603, 2002.

Notas de Rodapé

  1. HERMAN, David. Storytelling and the Sciences of Mind. Cambridge, MA: MIT Press, 2013. ↩︎
  2. Divisa, poema de Jacob Levy Moreno, citado em MARINEAU, René F. Jacob Levy Moreno: 1889-1974: Pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo. Tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. São Paulo: Editora Ágora, 1993. ↩︎
  3. WADE, Kimberley A.; GARRY, Maryanne; READ, J. Don; LINDSAY, D. Stephen. A picture is worth a thousand lies: Using false photographs to create false childhood memories. Psychonomic Bulletin & Review, v. 9, n. 3, p. 597-603, 2002. ↩︎
  4. Hugo Münsterberg (1863-1916) foi um psicólogo e filósofo alemão, reconhecido como um dos pioneiros da psicologia aplicada. Nascido em Danzig, Prússia (atual Gdańsk, Polônia), em 1º de junho de 1863, Münsterberg demonstrou desde cedo interesse pelas artes e ciências. Estudou psicologia na Universidade de Leipzig sob a orientação de Wilhelm Wundt, obtendo seu doutorado em 1885. Posteriormente, formou-se em medicina pela Universidade de Heidelberg em 1887. (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Hugo Münsterberg. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Hugo-Munsterberg. Acesso em: 10 nov. 2024.) ↩︎
  5. MÜNSTERBERG, Hugo. On the witness stand: Essays on psychology and crime. New York: McClure, 1908. ↩︎
  6. Ulric Gustav Neisser (1928–2012) foi um psicólogo germano-americano, amplamente reconhecido como o “pai da psicologia cognitiva”. Nascido em Kiel, Alemanha, em 8 de dezembro de 1928, Neisser emigrou com sua família para os Estados Unidos em 1933. Formou-se em psicologia pela Universidade Harvard em 1950 e obteve seu doutorado na mesma instituição em 1956.(WIKIPEDIA. Ulric Neisser. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ulric_Neisser. Acesso em: 10 nov. 2024.) ↩︎
  7. NEISSER, Ulrich; HARSCH, Nicole. Phantom flashbulbs: False recollections of hearing the news about Challenger. In: WINOGRAD, E.; NEISSER, U. (Eds.). Affect and Accuracy in Recall: Studies of “Flashbulb” Memories. New York: Cambridge University Press, 1992. p. 9-31. ↩︎

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Sou Alexandre Costa

A imagem mostra um homem com uma longa barba grisalha e cabelo curto, usando óculos e uma camisa preta com o logotipo "Calvin Klein Jeans" estampado no peito. Ele está em um ambiente externo, com uma árvore grande e galhos densos ao fundo. A iluminação natural destaca o rosto e os detalhes da barba, criando uma atmosfera tranquila e natural. A expressão facial é neutra, transmitindo uma aparência calma e acolhedora. No canto inferior direito, há uma marcação de data e hora: "17 de jul. de 2024, 17:26."

Psicólogo Clínico especializado em autistas adultos, Supervisor Clínico Institucional da Casa da Esperança com mais de 30 anos de experiência com pessoas autistas de todos os nós do espectro.