David Chalmers é um filósofo australiano conhecido por suas contribuições à filosofia da mente e da consciência. publicou, em conjunto com Andy Clark, um artigo clássico na década de 90 chamado “A Mente Estendida”1. Nesse artigo, que menciono aqui, eles argumentam que os processos mentais podem se estender para além do cérebro, incorporando elementos do ambiente como parte da cognição, um assunto que tenho explorado de modo recorrente neste blog.
Recentemente, assisti a um diálogo provocativo entre Chalmers e Robert Lawrence Kuhn, que trouxe à tona as questões centrais do debate sobre consciência e materialismo. Esse debate não apenas nos desafia a pensar sobre as limitações das abordagens materialistas da consciência, mas também ilumina as complexidades filosóficas que cercam nossa tentativa de entender a mente humana. Vamos mergulhar nesse diálogo e explorar as diferentes perspectivas que Chalmers oferece sobre o dilema da consciência na filosofia contemporânea.
O Problema da Consciência e o Materialismo
David Chalmers começa compartilhando um pouco de sua jornada pessoal: ele também foi treinado como cientista e, como muitos cientistas de sua geração, partiu do pressuposto de que o materialismo devia ser verdade.
Havia um consenso de que a matéria era a base de toda a realidade e, portanto, a explicação para todos os fenômenos deveria, em última instância, ser reduzida a processos físicos. No entanto, ao se aprofundar nas questões da consciência, ele se deparou com um problema que parecia cada vez mais difícil de conciliar com o materialismo.
O cerne da questão é que podemos conhecer todos os processos físicos do cérebro, entender cada neurônio envolvido, por exemplo, no processamento da cor, e mesmo assim não conhecer a experiência subjetiva de ver a cor vermelha.
A sensação de vermelhidão que percebemos ao olhar para uma maçã, por exemplo, é algo qualitativo, um fenômeno interno que não pode ser plenamente descrito apenas com termos científicos objetivos. Essa “lacuna explicativa” é a raiz do problema para o materialismo: como explicar a experiência subjetiva em um mundo onde, supostamente, tudo é apenas físico?
Chalmers descreve isso como um desafio central à filosofia da mente, algo que ele, ao longo dos anos, passou a acreditar que poderia ser, em última instância, impossível de resolver dentro de um paradigma materialista estrito. Ele explica que existem várias abordagens para tentar enfrentar esse problema, mas cada uma tem suas limitações intrínsecas.
As Três Abordagens do Materialismo
Chalmers apresenta três diferentes respostas materialistas para esse problema, e cada uma delas tenta resolver a questão da experiência subjetiva de forma distinta:
- Materialismo Tipo A: Essa é a abordagem mais extrema, que simplesmente nega a existência da consciência como algo que precisa ser explicado. Para os defensores dessa linha, a consciência é uma ilusão. Não há, de fato, nada além dos processos físicos acontecendo no cérebro. Assim, se acreditamos que há algo como uma experiência subjetiva, estamos enganados – é apenas uma construção da nossa mente. Esse tipo de materialismo é conhecido como eliminativismo, porque elimina completamente a consciência do campo da investigação científica. Chalmers rejeita essa visão por considerar a consciência um dado fundamental da nossa existência; ele argumenta que negar a existência da consciência é negar o ponto de partida mais básico de nossa experiência.
- Materialismo Tipo B: Aqui, admite-se que existe uma “lacuna” entre nosso conhecimento sobre o cérebro e a consciência, mas essa lacuna é apenas conceitual, não ontológica. Ou seja, fisicamente falando, consciência e cérebro são a mesma coisa; temos apenas duas formas de pensar sobre o mesmo fenômeno. Chalmers descreve que, nessa visão, existe um único fenômeno subjacente, mas duas maneiras diferentes de acessá-lo: de um lado, temos o ponto de vista objetivo, que observa os processos físicos no cérebro; do outro, temos o ponto de vista subjetivo, que é a nossa experiência interna. Essa visão, conhecida como “identidade de diferentes modos de acesso“, é atraente para muitos porque tenta preservar tanto o realismo físico quanto a existência da experiência. No entanto, Chalmers argumenta que, embora atrativa, essa abordagem ainda é insuficiente, pois falha em explicar por que essa lacuna conceitual existe e como ela poderia ser preenchida.
- Materialismo Tipo C: Essa é uma abordagem otimista, que sugere que a lacuna entre consciência e processos físicos será fechada no futuro. Quando tivermos uma compreensão completa dos correlatos neurais da consciência e do funcionamento do cérebro, poderemos, então, deduzir tudo sobre a consciência a partir disso. Esse tipo de materialismo é, em certo sentido, uma aposta no progresso da ciência. A ideia é que a ciência, ao avançar, eventualmente nos dará as respostas que buscamos. No entanto, Chalmers argumenta que, em princípio, sempre haverá uma “lacuna” que não pode ser preenchida apenas com descrições estruturais e dinâmicas. Ele defende que, mesmo que saibamos tudo sobre o funcionamento físico do cérebro, isso não necessariamente nos permitirá compreender a experiência subjetiva.
Dualismo: O Que Resta Após o Materialismo?
Ao rejeitar as três formas de materialismo, Chalmers propõe que precisamos considerar alternativas não materialistas, e isso nos leva ao dualismo. No dualismo, a consciência é admitida como uma categoria fundamental da realidade, ao lado de outros elementos como espaço, tempo e massa. Ele explora duas vertentes principais do dualismo, cada uma com implicações diferentes sobre o papel da consciência no mundo físico:
- Epifenomenalismo: A consciência é um efeito colateral dos processos físicos, mas não tem efeito causal sobre o mundo físico. Neste caso, a consciência estaria “pendurada” fora do sistema, incapaz de influenciar o comportamento humano de maneira direta. Assim, as ações que tomamos são totalmente determinadas pelos processos físicos, enquanto a consciência apenas acompanha esses processos sem exercer nenhuma influência. Chalmers admite que essa visão é difícil de aceitar para muitos, pois contradiz nossa intuição de que nossos pensamentos e sentimentos têm um impacto direto em nossas ações. Contudo, essa perspectiva preserva a ideia de um universo físico fechado, onde todas as causas são físicas.
- Dualismo Interacionista: Aqui, a consciência não só existe como também tem um impacto causal no mundo físico, podendo influenciar processos cerebrais. Esse tipo de dualismo é mais próximo do senso comum, pois defende que nossas decisões conscientes podem, de fato, influenciar nosso comportamento. Por exemplo, a dor de colocar a mão em uma superfície quente leva-nos a retirar a mão, e isso se deve ao impacto causal da experiência consciente. No entanto, Chalmers alerta que essa abordagem desafia os princípios fundamentais da física, como a conservação da energia e o determinismo dos sistemas físicos. Para que a consciência influencie o mundo físico, seria necessário postular que há algo além das leis físicas como as conhecemos, talvez uma influência através de processos quânticos, como alguns sugerem.
Considerações Finais
Chalmers conclui sugerindo que a consciência apresenta uma “novidade radical”, diferente dos fenômenos naturais que emergem de dinâmicas não-lineares, como uma bomba atômica ou o movimento de um furacão. Ele acredita que a consciência não é apenas uma questão de complexidade emergente; em vez disso, é um tipo de fenômeno fundamentalmente diferente.
Ao contrário de fenômenos como a complexidade do clima, que podem ser explicados como o resultado de interações dinâmicas de múltiplas partes, a consciência parece envolver algo que não se resume a meros processos físicos. Em sua opinião, trata-se de uma qualidade distinta da realidade que desafia nossas tentativas de reduzi-la a processos materiais.
Essas ideias não apenas desafiam as nossas compreensões científicas, mas também nos convidam a reavaliar nossas crenças mais fundamentais sobre a natureza da realidade e da mente. Se a consciência não pode ser explicada apenas pela ciência física, isso implica que precisamos expandir nossa compreensão do que constitui a realidade. Talvez seja necessário desenvolver novas teorias que levem em consideração aspectos que a ciência atual ainda não consegue abarcar.
O debate entre materialismo e dualismo está longe de ser concluído, e a discussão levantada por Chalmers é um convite para que continuemos explorando essas questões. Afinal, a natureza da mente e da consciência é, possivelmente, um dos maiores mistérios que restam para ser desvendados, e sua resposta pode nos levar a uma compreensão mais profunda não apenas a nosso respeito, mas também do universo ao nosso redor.
E você, como encara essas abordagens sobre consciência? Concorda com a posição de Chalmers sobre a “lacuna” irreconciliável entre consciência e materialismo? Acredita que a ciência, um dia, conseguirá explicar completamente a experiência subjetiva? Compartilhe suas ideias e vamos manter essa discussão viva!
- CLARK, A.; CHALMERS, D. The Extended Mind. Analysis, v. 58, n. 1, p. 7–19, 1 jan. 1998. ↩︎








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