Uma compreensão modular do ser humano

Nós somos seres vivos, e nossas mentes são parte dos processos de manutenção da vida. 

E como tal somos seres plurais, ecossistemas ambulantes. A vida é toda uma só. E não é o oposto de morte: O que chamamos morte é mais um dos mecanismos do dinamismo do universo a que chamamos vida.

Sob extrema pressão, parecemos nos dividir, como em casos de abuso sistemático e continuado, quando podemos até cristalizar naquilo que é chamado de transtorno dissociativo de identidade (TDI). Mas já éramos plurais antes. É que o módulo que alimenta a ilusão individual tornou-se desadaptativo, frente à magnitude dos desafios. E para fazer frente a um desafio que parece excessivo ao indivíduo, o modelo gerativo se rearranja, e “dissocia”. Está entre aspas aqui porque só parece dissociação do ponto de vista individual. Dissociação é apenas colaboração interna, na tentativa do organismo de ser mais eficaz perante os desafios.

Deste ponto de vista, dissociação não seria um defeito, mas uma habilidade do cérebro automático, que à psicodinâmica apetece chamar de inconsciente; operando fora da pálida vela que ilumina a vastidão escura da nossa realidade (externa ou interna, não importa, e daqui a pouco direi por que), operando fora da nossa consciência esquálida e frágil, há um concerto de células funcionando em harmonia (não em uníssono, uníssono é sincronia, que é o que acontece entre certos neurônios durante um ataque epilético: param de dançar com o mundo externo e começam a mover-se em função do próprio ritmo de disparo coordenado internamente pelo foco).

O coletivo que somos precisa produzir a frágil ilusão de sermos “eus”.

Mas mesmo isso, o sermos coletivos, representando o desafio de tornarmos-nos um, não é senão uma delimitação categorial, uma definição1. Porque de outra perspectiva, somos ecossistemas fazendo parte de ecossistemas, em cooperação e competição com outros ecossistemas, Numa matrioska de sistemas vivos interligados.

Não importa a internalidade ou externalidade dos eventos, porque o mundo tal como o conhecemos é construído desde dentro; Percepção é atividade basal do cérebro, em construir o mundo em acoplamento com este mesmo mundo. E o mundo tal como conhecemos é o mundo tal como nos parece ser. Ninguém, sabe como o mundo é 2.

Percepção não é ato passivo. Precisa parecer passivo, para que seu papel seja cumprido com maestria em quem não tem muita atividade metacognitiva em andamento, dentro dos limites individuais imaginários de sua mente.

Mas sabendo disso, e vez por outra, percebendo isso, seja através da meditação, seja através de enteógenos, temos um vislumbre de que aqueles poetas marginais e malucos estavam certos. Somos um e somos múltiplos. Eu não consigo enxergar isso. Nenhum eu consegue.

Para saber mais:

  1. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos Costa e Marcos Müller de Barros da Costa. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Publicado originalmente em 1781.
  2. SETH, Anil. Being you: a new science of consciousness. Londres: Faber & Faber, 2021.
  3. VELOSO, Caetano. Livros. In: Livros [música online]. Spotify, 2000. Disponível em: https://open.spotify.com/track/7zZ6jn0r0dO25rnJkAUHWE?si=G0BB5q9QR8mlF58rCa9TpA. Acesso em: 28 jun. 2025.
  1. “Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso, e sem dúvida, sobretudo o verso, é o que pode lançar mundos no mundo” – Caetano Veloso (“Livros”, canção em disco homônimo) ↩︎
  2. Aqui ecoamos Kant em Crítica da Razão Pura(1781): “O entendimento nada mais conhece senão o que lhe é dado, segundo sua forma subjetiva de intuição. […] O que chamamos de coisa em si (noumenon) permanece para nós incognoscível.” e, simultaneamente, a nova neurociência embasada em Processamento Preditivo (SETH, 2021): “Nunca experimentamos o mundo diretamente. Em vez disso, experimentamos o mundo por meio do véu das melhores suposições do nosso cérebro — suas predições. O que vemos, ouvimos e sentimos é uma construção cerebral, uma alucinação controlada moldada por dados sensoriais.”
    ↩︎

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Sou Alexandre Costa

A imagem mostra um homem com uma longa barba grisalha e cabelo curto, usando óculos e uma camisa preta com o logotipo "Calvin Klein Jeans" estampado no peito. Ele está em um ambiente externo, com uma árvore grande e galhos densos ao fundo. A iluminação natural destaca o rosto e os detalhes da barba, criando uma atmosfera tranquila e natural. A expressão facial é neutra, transmitindo uma aparência calma e acolhedora. No canto inferior direito, há uma marcação de data e hora: "17 de jul. de 2024, 17:26."

Psicólogo Clínico especializado em autistas adultos, Supervisor Clínico Institucional da Casa da Esperança com mais de 30 anos de experiência com pessoas autistas de todos os nós do espectro.