
Desde 1993, dedico-me ao trabalho com autismo. Foi em outubro deste ano que iniciei minha trajetória na Casa da Esperança, onde até hoje atuo como psicoterapeuta e supervisor clínico institucional.
Durante essas três décadas, testemunhei mudanças significativas no campo do autismo, tanto em termos de compreensão teórica quanto na abordagem prática. Minha trajetória foi marcada pela transição por distintas tradições teóricas e metodológicas, como o Psicodrama, a Análise do Comportamento, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e, mais recentemente, a integração de perspectivas cognitivistas oriundas da neurociência e da filosofia da mente, como o Processamento Preditivo e a Cognição 4E.
Longe de um ecletismo estéril, essa pluralidade, firmemente ancorada numa base teórica cognitivista, reflete o meu compromisso com uma clínica psicológica que reconheça a complexidade da vida e a diversidade de suas manifestações no mundo humano.
Este blog é um espaço para aprofundar essas perspectivas e compartilhar reflexões que conectam teoria e prática. Meu objetivo é não apenas disseminar conhecimento, mas também criar um ambiente de diálogo crítico.
Aqui, busco integrar conceitos como cognição estendida, mente preditiva e inferência ativa, oferecendo insights sobre a relação entre memória, identidade e subjetividade. É um convite para acadêmicos, profissionais de saúde e o público em geral explorarem comigo os desafios e as possibilidades de compreender e apoiar as pessoas autistas em sua singularidade, sem recorrer a soluções “simples, rápidas e equivocadas”, como tantas que estão à venda no mercado do autismo, cada vez mais profuso.
Estruturando-me para o Mestrado
Além de ser um canal de comunicação, este blog é também uma plataforma para amadurecimento intelectual. Nele, organizo e desenvolvo reflexões que pretendo expandir em um mestrado, que planejo iniciar em 2026. Meu interesse acadêmico está direcionado para áreas como Ciência Cognitiva e Filosofia da Ciência Cognitiva, campos que permitem investigar profundamente as bases epistemológicas, fenomenológicas e éticas do autismo e das práticas clínicas associadas.
A escrita neste espaço não apenas estrutura minhas ideias, mas também funciona como um laboratório, onde exploro conexões entre diferentes tradições teóricas. Aqui, elaboro hipóteses, questiono pressupostos e estabeleço diálogos entre áreas do conhecimento que, muitas vezes, operam de forma isolada. Meu objetivo é construir uma base sólida para futuras contribuições acadêmicas, mantendo o rigor científico e, ao mesmo tempo, uma linguagem acessível e instigante.
Como se pode observar desde os primeiros artigos deste blog, tenho bastante atenção a questões como autoria e atribuição de autoria, e a genealogia das idéias. Compreendo, com Isaac Newton, que estamos sempre “sobre os ombros de gigantes”, pois uma das características mais distintivas do conhecimento científico é ser cumulativo.
Sobre o Uso de Inteligências Artificiais Neste Blog
Como uma pessoa neurodivergente, convivi com muitos desafios ao longo de minha trajetória acadêmica e profissional. Passei mais de uma década para concluir o curso de Psicologia, algo que certamente teria sido diferente se, naquela época, eu tivesse acesso a tecnologias assistivas como as IAs generativas. Hoje, ferramentas como ChatGPT e Gemini, (este último mais utilizado através do NotebookLM), são minhas aliadas para superar dificuldades executivas e aumentar minha produtividade.
Uso também o Turboscribe para ditar meus artigos e depois refinar as transcrições dos áudios através de inteligência artificial. Para as referências, muitas vezes uso o Scite, e/ou o Research Rabbit.
Meus textos não são, no entanto, escritos pelo Doutor Gepeto (o apelido carinhoso do chatgpt). Eles são escritos por mim. Conto com a IA para organizar ideias, estruturar conteúdos e até mesmo para auxiliar na leitura, fichamento e resumo de artigos e livros que compõem minha biblioteca no Zotero.
Tenho assinatura anual do Speechify, que transforma livros e artigos científicos, na sua maioria em inglês, em podcasts e audiolivros para uma apreciação multimodal da literatura. Isso consolida meu conhecimento com uma rapidez inédita. Tenho 51 anos e meio, no momento em que escrevo essas palavras. As areias do tempo não param de deslizar. Se tem algo que não posso mais me dar ao luxo de fazer, é adiar meus projetos. E eu quero ser mestre e doutor. Mesmo que seja a última coisa que eu faça.
Essas ferramentas permitem que eu dedique mais tempo ao aprofundamento conceitual e menos às tarefas operacionais, otimizando meu fluxo de trabalho sem comprometer a autoria dos textos.
Em algum momento desta jornada, irei descrever melhor, em artigos, vídeos e episódios de podcast como uso cada uma dessas tecnologias, e como elas estão viabilizando uma estrada para que eu possa seguir nessa minha jornada intelectual.
Criei o conceito de “matrioska de conteúdo” (não sei se alguém chama assim) para descrever meu processo de leitura e fichamento. Essa abordagem consiste em criar camadas progressivas de estrutura e detalhamento, onde o texto inicial funciona como uma “casca” que é refinada e ampliada com o passar do tempo. Cada interação com IAs, ou com leitores humanos do blog, contribui para aprimorar o conteúdo, tornando-o tanto mais robusto quanto mais alinhado ao meu estilo de escrever e de falar.
A IA é uma ferramenta valiosa, mas não substitui o pensamento crítico e a intuição que guiam meu trabalho. Ela só extende a minha mente, de um modo inédito, permitindo que eu continue explorando meus temas complexos preferidos, e compartilhando essas reflexões de um modo acessível e elegante.
Relevância das Redes de Suporte
É frequente em meu trabalho a sugestão, dada em textos que publico na internet, ou comunicada diretamente a pacientes, ou a seus pais, que o trabalho clínico individual é apenas o começo do suporte necessário para promover o bem-estar de qualquer pessoa, incluindo pessoas autistas. Ser autista não nos priva de sermos gregários.
Na verdade, a interação social, respeitando nossas especificidades, revela formas únicas de conexão e colaboração. Num contexto terapêutico, as conexões sociais desempenham um papel crucial na criação de um senso de pertencimento, e de habilidades adaptativas. Essas redes são fundamentais para construir ambientes que respeitem a diversidade, promovendo não só integração, mas celebração das nossas diferenças.
O trabalho clínico só faz sentido quando está ancorado em redes de apoio robustas e comunidades acolhedoras. É quando ele deixa os limites restritos das paredes dos consultórios e se torna movimento social e ativismo pelos direitos humanos.
Na Casa da Esperança, desenvolvemos modelos que integram múltiplas perspectivas e promovem práticas inclusivas, criando um ambiente em que pessoas autistas e suas famílias possam não apenas sobreviver como prosperar, funcionando em rede, para dividir a carga cognitiva orgânica às nossas vidas.
Em que pese sermos, além de pessoas neurodivergentes, terapeutas, vivemos num sistema capitalista, de exploração do trabalho, e pessoas fora do mundo do trabalho frequentemente, sob a ética derivada deste sistema, são consideradas pessoas sem valor. A própria existência da Casa da Esperança é uma insurgência perene contra este estado de coisas.
O isolamento social, manifestado como “individualismo metodológico”, é a ferramenta por excelência do capitalismo, que privilegia a produtividade em vez da dignidade. Por meio de nossos projetos colaborativos, transformamos dor individual em criação coletiva.
Se nos apreciamos por quem somos, e não apenas pelos problemas que trazemos, a vida fica muito mais rica e significativa. Um significado que criamos em conjunto, e não aquele imposto a nós pelas classes dominantes, que não nos querem senão escravizados.
Este blog reflete essa filosofia, oferecendo um espaço para discutir, aprimorar e disseminar práticas e idéias alinhadas com os direitos humanos e o respeito à diversidade humana, com todas as suas cores, para inspirar outros profissionais e instituições a adotarem abordagens similares.
Convite ao Diálogo e Construção Coletiva
Convido você, que me lê, a pensar junto comigo. Este blog não é apenas um repositório de ideias, é um espaço de construção coletiva. Acredito que o avanço no campo do autismo depende de diálogos abertos e colaborativos, que valorizem tanto o rigor acadêmico quanto as experiências práticas.
Vamos construir uma visão mais abrangente e integradora sobre o autismo, que tanto valorize as singularidades quanto promova avanços teóricos e práticos. Compartilhe suas ideias no campo de comentários dos artigos, comente, e contribua com este esforço coletivo. Sua perspectiva pode iluminar aspectos que talvez eu não tenha considerado, enriquecendo o debate e ampliando as nossas possibilidades de ação. Cognição é um processo estendido e distribuído. Ninguém pensa sozinho.
Juntos, podemos conectar filosofia, neurociência e psicologia, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas autistas em nossas comunidades. Essa jornada intelectual e vivencial não tem destino fixo; ela se constrói no encontro com outras vozes, perspectivas e experiências. Seja bem-vindo a essa construção.
Referências
- ChatGPT. Disponível em: https://chatgpt.com. Acesso em: 8 dez. 2024.
- Gemini. Disponível em: https://gemini.google.com. Acesso em: 8 dez. 2024.
- NotebookLM. Disponível em: https://notebooklm.google.com. Acesso em: 8 dez. 2024.
- Turboscribe. Disponível em: https://turboscribe.ai. Acesso em: 8 dez. 2024.
- Scite. Disponível em: https://scite.ai. Acesso em: 8 dez. 2024.
- Research Rabbit. Disponível em: https://www.researchrabbit.ai. Acesso em: 8 dez. 2024.
- Zotero. Disponível em: https://www.zotero.org. Acesso em: 8 dez. 2024.
- Speechify. Disponível em: https://app.speechify.com. Acesso em: 8 dez. 2024.
- Uma pessoa neurodivergente. Disponível em: https://ddaeosentidodavida.blogspot.com/2010/10/balada-do-louco.html. Acesso em: 8 dez. 2024.






