Sobre mim

Quem Sou Eu

Sou Alexandre Costa e Silva, psicólogo clínico com mais de três décadas de experiência e uma trajetória de vida dedicada ao autismo e a servir pessoas neurodivergentes. Eu mesmo me considero neurodivergente, assumidamente TDAH e presumidamente autista. Ao longo dos anos, tive a sorte de vivenciar diferentes perspectivas teóricas e práticas na psicologia, desenvolvendo uma abordagem própria, fundamentada na neurociência cognitiva, mais precisamente no paradigma da Inferência Ativa e do Processamento Preditivo, que busca respeitar a singularidade de cada paciente e abrir novas formas de entender a mente humana. Como neurodivergente assumido, com altas habilidades e TDAH, minhas próprias experiências pessoais me levaram a um interesse profundo na diversidade de formas de pensamento e percepção.

Minha Trajetória Teórica e Profissional

Minha história profissional começou em 1993, quando entrei para a equipe da Casa da Esperança, em Fortaleza, instituição fundada por Fátima Dourado (que um ano depois veio a ser minha companheira de vida) e um grupo de mães, com o objetivo de apoiar pessoas autistas e suas famílias em suas jornadas pessoais. Inicialmente, trabalhei como cuidador de nível médio, mas rapidamente percebi que aquele ambiente tinha muito mais a oferecer. Logo retomei minha formação acadêmica em Psicologia, tornando-me parte da equipe de fundação da Casa e mergulhando no atendimento a pessoas com autismo. Ao longo dos anos, minha prática se tornou um verdadeiro laboratório de aprendizado e crescimento.

Ainda nos anos de faculdade, estudei psicodrama com Dalmiro M. Bustos, um dos principais nomes do psicodrama na América Latina e discípulo direto de J.L. Moreno, fundador do psicodrama. Com Bustos, aprendi a aplicar técnicas de dramatização e a conduzir sessões onde o paciente explora seus conflitos por meio da representação de papéis. O psicodrama trouxe para minha prática um enfoque direto no comportamento e nas dinâmicas interpessoais, e esses princípios seguem presentes na forma como abordo questões complexas e na leitura das interações sociais de meus pacientes.

Hoje, embora não utilize mais o psicodrama clássico como técnica de apoio, retenho ideias centrais dessa abordagem na construção do vínculo terapêutico. A experiência com o psicodrama reforçou em mim a importância de uma relação genuína e ativa entre terapeuta e paciente, onde o terapeuta não apenas observa, mas participa, com autenticidade, do processo.

Esse relacionamento é uma via de mão dupla: busco que o paciente sinta-se seguro para explorar seus conflitos e padrões relacionais enquanto mantenho uma postura de presença ativa e responsiva. O que aprendi com o psicodrama sobre o papel da empatia e da espontaneidade continua sendo essencial para estabelecer uma base de confiança, facilitando intervenções que vão além do verbal e alcançam camadas mais profundas da experiência humana.

Em um texto antigo, que importarei para esse blog, explico como meu trabalho me direcionou a desenvolver uma base sólida em formulações de caso usando a Análise Aplicada do Comportamento, fundamentou minha prática por anos. No entanto, à medida que aprofundei meus estudos, encontrei no Processamento Preditivo (PP) e na Inferência Ativa uma estrutura teórica capaz de unificar e ampliar as minhas práticas de intervenção. Hoje, essa perspectiva orienta minha prática clínica e se tornou um pilar central na minha abordagem aos fenômenos psicológicos.

Influências e Referências Centrais

J.L. Moreno, criador do psicodrama, trouxe uma perspectiva inovadora sobre o papel das relações sociais e das dinâmicas interpessoais no desenvolvimento humano. Sua abordagem dramatúrgica me ensinou a importância do papel ativo do terapeuta na interação com o paciente e influenciou profundamente minha maneira de ver o comportamento humano como algo essencialmente relacional. Moreno ofereceu uma nova forma de acessar o conteúdo emocional dos pacientes, não apenas pela fala, mas pela ação, algo que permaneceu comigo mesmo após deixar de usar o psicodrama formalmente.

A filosofia de Henri Bergson, com seu enfoque no tempo como uma experiência contínua e na mente como um processo de “devir”, me ajudou a ver o desenvolvimento humano sob uma ótica dinâmica. Bergson propôs uma visão de mente e percepção como processos em constante movimento e atualização, ideia que ressoa com teorias contemporâneas de processamento preditivo e com minha visão clínica. Essa influência está presente no entendimento de cada paciente como um ser em constante transformação, em vez de um estado estático a ser “corrigido”.

A obra de B.F. Skinner, ícone do behaviorismo, trouxe para minha prática uma visão pragmática do comportamento humano. Embora minha abordagem tenha evoluído para além do behaviorismo estrito, a ênfase de Skinner no comportamento observável e na análise funcional me fornece ferramentas importantes para estruturar intervenções e identificar padrões nos quais o paciente se vê preso. Mesmo afastado da rigidez behaviorista, ainda vejo valor nas análises diretas de estímulos e respostas, especialmente na compreensão e estruturação de comportamentos complexos.

Murray Sidman é uma referência crucial no estudo do controle aversivo e das contingências de reforço. Seus estudos sobre condicionamento e as dinâmicas de evitamento reforçaram em mim a importância de entender o impacto psicológico do uso de controle punitivo e do ambiente coercitivo. Sidman me deu as bases para evitar métodos aversivos em qualquer tipo de intervenção, promovendo a criação de ambientes terapêuticos seguros, onde o aprendizado acontece de maneira construtiva e respeitosa.

Milton Erickson foi um mestre em intervenções breves e personalizadas, com foco na adaptabilidade e na criatividade do terapeuta. Sua abordagem de hipnoterapia e a flexibilidade em lidar com o inconsciente inspiraram a forma como conduzo o processo terapêutico: cada intervenção é adaptada à pessoa, em vez de seguir fórmulas prontas. Erickson me ensinou o valor de observar os detalhes das expressões e reações dos pacientes e, quando necessário, ser inovador na escolha das estratégias terapêuticas, mantendo o tratamento vivo e responsivo.

Gregory Bateson introduziu uma perspectiva ecológica à psicologia e influenciou diretamente meu entendimento de sistemas e contextos. Sua visão de mente como uma parte de um sistema mais amplo, integrado ao ambiente, modela meu trabalho com famílias e pacientes. A perspectiva sistêmica de Bateson reforça a importância de considerar o contexto de cada paciente como um componente essencial de qualquer análise ou intervenção, especialmente na prática com autistas, onde a interação com o ambiente é fundamental para a compreensão e suporte.

Andy Clark é um dos pensadores mais influentes em minha adoção da teoria do Processamento Preditivo. Sua abordagem sobre a mente como uma máquina de previsão, que constantemente ajusta suas hipóteses e interpretações sobre o mundo, oferece uma base teórica robusta para entender a cognição humana. A ideia de que estamos sempre “um passo à frente” no processo perceptivo redefine a interação do paciente com a realidade e fundamenta minha prática em uma perspectiva ativa e dinâmica da mente.

Este autor, ainda ativo no presente, desempenha um papel crucial na integração entre o Processamento Preditivo e a Cognição 4E, que é fundamentada nos conceitos de cognição corporificada, situada, enativa e estendida. Embora essas abordagens sejam frequentemente vistas como opostas — o Processamento Preditivo sugere um cérebro ativo em constante atualização das representações internas para minimizar erros preditivos, enquanto a Cognição 4E enfatiza a mente como indissociável do corpo e do ambiente externo — Clark constrói pontes entre essas tradições e encontra um ponto de convergência.

Clark propõe que o cérebro funciona não apenas como uma “máquina de predições”, mas como um órgão incorporado e adaptativo que interage continuamente com o ambiente e usa recursos externos para complementar seu funcionamento interno. Essa síntese que ele propõe alinha-se ao Processamento Preditivo, defendido por Karl Friston e Jakob Hohwy, ao mesmo tempo que respeita e integra aspectos fundamentais da Cognição 4E, apoiada por autores como Francisco Varela e Shaun Gallagher.

Ao unir essas duas correntes, Clark oferece uma visão mais abrangente e prática da cognição: o cérebro não apenas minimiza a incerteza de forma isolada, mas também utiliza o corpo e o contexto como extensões funcionais para alcançar esse objetivo. Isso torna sua contribuição particularmente relevante para uma prática clínica que deseja ser ao mesmo tempo científica e sensível ao ambiente, ao corpo e à interação social como partes do processo terapêutico.

Em minha jornada teórica, figuras como Karl Friston e o Princípio da Energia Livre desempenharam um papel crucial na forma como concebo a psicologia. Essa teoria sugere que o cérebro funciona como uma máquina de previsões, constantemente atualizando suas hipóteses para minimizar o erro de previsão e a incerteza. Essa visão preditiva molda profundamente como percebo a mente e o comportamento, oferecendo uma explicação abrangente para processos mentais complexos. Junto a Friston, outros autores como Jakob Hohwy e Lisa Feldman Barrett também trouxeram insights essenciais para meu entendimento sobre a mente humana, sendo hoje referências que busco incorporar de maneira prática e integrativa na minha abordagem clínica.

Filosofia de trabalho e Visão da Psicologia

Acredito que a psicologia não deve apenas descrever o comportamento, mas também oferecer um espaço para o diálogo e a compreensão da subjetividade humana. Nos meus atendimentos a adultos autistas, por exemplo, tenho como premissa que não existe apenas um “tipo” de autismo; ao contrário, vejo diferentes “autismos”, cada um com suas particularidades e níveis de suporte necessários. Essa perspectiva me levou a valorizar intervenções inclusivas, onde pessoas autistas, suas famílias e seu contexto social formam um sistema que precisa ser abordado com respeito e compreensão. Para mim, o autismo é uma expressão legítima da diversidade humana, e vejo minha prática como um compromisso com o reconhecimento e a dignidade desses indivíduos.

Alguns Detalhes Pessoais

Sou, antes de tudo, uma pessoa curiosa e apaixonada por tecnologia. Tenho um fascínio por gravações de áudio e coleciono equipamentos de gravação. Esse interesse se estende à criação de conteúdos para a internet, como podcasts e vídeos, onde exploro temas ligados à neurodivergência e ao desenvolvimento psicológico. Sou uma pessoa bem-humorada e gosto de pensar que meu estilo descontraído de trabalhar reflete minha crença na importância de um ambiente acolhedor e leve, onde todos possam ser ouvidos e valorizados. No meu tempo livre, a música e a filosofia são meus companheiros de reflexão.

O Propósito do Blog

Este blog nasce de uma vontade de compartilhar o conhecimento e as experiências que venho acumulando ao longo dos anos. Quero que ele seja um espaço para discutir temas complexos da psicologia e neurociência de forma acessível e instigante, sempre com um olhar para a aplicação prática desses conceitos no dia a dia dos profissionais da área e das pessoas interessadas. Este espaço é para reflexões, aprendizados e trocas, onde espero que minha experiência possa se somar a outras e que, juntos, possamos expandir os horizontes da psicologia.

Sou Alexandre Costa

A imagem mostra um homem com uma longa barba grisalha e cabelo curto, usando óculos e uma camisa preta com o logotipo "Calvin Klein Jeans" estampado no peito. Ele está em um ambiente externo, com uma árvore grande e galhos densos ao fundo. A iluminação natural destaca o rosto e os detalhes da barba, criando uma atmosfera tranquila e natural. A expressão facial é neutra, transmitindo uma aparência calma e acolhedora. No canto inferior direito, há uma marcação de data e hora: "17 de jul. de 2024, 17:26."

Psicólogo Clínico especializado em autistas adultos, Supervisor Clínico Institucional da Casa da Esperança com mais de 30 anos de experiência com pessoas autistas de todos os nós do espectro.