Nome pequeno, instruções simples, objetivos claros. Mas, é a “única abordagem científica?” e, mais importante: “é a melhor?”
Esta semana, me foi enviado por um pai da Casa da Esperança, aqui no Ceará, um vídeo de um outro pai, de outro estado brasileiro (cujo nome não mencionarei aqui, por razões óbvias), defendendo apaixonadamente ABA (embora seu filho estivesse recebendo este tratamento há poucos meses).
Ele só teve acesso à ABA de verdade há poucos meses, e eu já vejo a diferença.
(O grifo é meu)
Um dos fatos que ele ignora, o que quer que ele esteja chamando de “ABA de verdade” no seu relato, é que a dificuldade de seu filho encontrar um bom analista do comportamento é, em parte, por causa do hype em torno da abordagem, que virou banana. Em toda esquina tem um quitandeiro vendendo.
De acordo ao seu relato, ABA é a única solução cientificamente embasada para lidar com os problemas de seu filho, mostrado no vídeo, um jovem claramente com uma necessidade de suporte significativa, que ele apresenta como alguém que, sem ABA, e quando ele e a mãe do rapaz “não mais estiverem na terra”, ficará desassistido.
Este é um sentimento profundo, que acomete qualquer pai de uma pessoa com defiência que tenha um mínimo de consciência. Por este motivo é que tem uma força poderosa de agregação, o potencial de erigir um culto em torno de qualquer coisa que se apresente como salvadora, como alternativa a esse final trágico, se ele for percebido como inevitável.
Eu e minha esposa, Fátima Dourado, temos dois filhos autistas não oralizados, com mais de quarenta anos de idade cada um. A Casa da Esperança tem pacientes que estão conosco desde 1993, cujos pais já faleceram. Graças a nosso constante incentivo aos vínculos familiares, irmãos e outros parentes acolheram autistas órfãos, e nenhum deles está cronificado em uma instituição. Existem alternativas a esse fim trágico, e elas não são novas.
O pai começa criticando “Mais uma bomba na cabeça dos autistas”, e pede para o público assistir ao vídeo, para “ficar do lado certo”. De saída, usa uma linguagem bem reduzida, que só deixa uma alternativa: concordar com ele, ou estar errado. Este tipo de técnica manipulativa, presente em seitas e também na hipnose conversacional ou ericksoniana, é hoje muito utilizada nas redes, inclusive para vender cursos e outras quinquilharias, ou convencer alguém a aderir a uma idéia, no estilo “tire suas próprias conclusões”.
A frase “tire suas próprias conclusões” é uma “pegadinha” hipnótica muito conhecida. Você apresenta o assunto de um modo que só permite uma conclusão, e pede para o espectador, ou leitor, pensar por si mesmo, sendo que, a partir da informação fornecida, você já está em priming, sob controle daquele estímulo complexo (a informação fornecida). Assim, quando as conclusões são “tiradas” — um verbo sugestivo — já que o apelo se refere às informações fornecidas no vídeo (e não a quaisquer outras, obtidas em outras fontes), elas ficam sob a proteção feroz do viés egóico, um guardião do nosso sistema de identidade, do nosso senso de “eu”.
Ora, se eu mesmo tiro uma conclusão, é muito mais difícil voltar atrás. Como diz uma frase atribuída (talvez equivocadamente) ao escritor americano Samuel Clemens, “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas”.
Então, ele continua:
Uma associação de autistas entregou pro governo federal um dossiê que compara ABA à internação manicomial, dizendo que força o autista a mascarar sua personalidade pra se adequar à normalidade.
Provendo informações mínimas sobre o que aconteceu, numa clara “call to action”, demonizando o ativismo neurodivergente, e se colocando, bem como aos seus espectadores no TikTok, como aliados na luta contra o inimigo. Se funcionou com Galtieri, porque não funcionaria para os pais azuis, não é mesmo?
Nada como um inimigo em comum para unir uma tribo, uma nação, ou um grupo com interesses comuns. É só isso que importa nessa comunicação.
O fato de que esse “dossiê” só veio a público para pelo menos duas das três associações de autistas (eram três, não uma só) após a recomendação à minstra ter sido entregue, o fato de que o assunto foi discutido por autistas, em um belíssimo encontro de autistas, incluindo pessoas com vários níveis de suporte, participando ativamente, e fazendo uso de outras alternativas de suporte totalmente diferentes de ABA não pode ser mencionado no vídeo, seja porque a pessoa não sabe que isso aconteceu, seja porque não interessa a ela senão divulgar ABA, que ela percebe como a salvação da lavoura.
O Apelo da ABA: Simplicidade e Acessibilidade
ABA, sigla para Applied Behavior Analysis, é um nome fácil de lembrar, e tem um apelo quase corporativo. Essa abordagem ganhou fama por apresentar métodos claros e diretos, com protocolos que prometem mudanças rápidas no comportamento, o que é atrativo para pais que buscam resultados objetivos e tangíveis, especialmente em contextos de maior necessidade de suporte. O depoimento deste pai reflete essa visão, apontando que ABA é uma abordagem prática que gera resultados.
Um dos meus filhos precisa de ABA pra não se machucar, pra não se mutilar. Só quem vive é que sabe. Não é um comportamento inadequado pra sociedade que eu quero que ele corrija.
ABA é um nome curto e direto, facilitando sua divulgação e memorização. Inclusive, é um acrônimo em inglês. Não funcionaria se fosse ACA (Análise do Comportamento Aplicada), porque parece com CACA (que é sinônimo de fezes). Então, tem um apelo “instagramável”. ABA parece com banana. E, como todo mundo sabe, YES, NÓS TEMOS BANANA, banana pra dar e vender, banana, menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer…
“A ABA é uma abordagem comprovada cientificamente no mundo inteiro, que dá resultado pra autistas, principalmente em nível 2 e 3. Só aqui no Brasil que apareceu esse absurdo.”
Essa é uma afirmação falsa. No mundo inteiro, o movimento de diversidade critica ABA, baseado no relato verbal de pessoas autistas que tiveram Transtorno de Estresse Pós-Traumático, seja porque foram torturados com ABA aversiva, seja porque desenvolveram uma performance social superficial que os faz sentir-se despersonalizados e “fingindo” o tempo todo, ainda que essas condutas tenham sido “instaladas” (como um programa em um computador) através de reforço positivo.
Então ABA é ruim?
A resposta não cabe nos algoritmos das redes sociais. É mais complexa do que eles. A Análise do Comportamento é uma psicologia tão legítima quanto qualquer outra, com sua própria epistemologia, que define sua cientificidade, e condições de validação do conhecimento que produz sobre as pessoas.
É perfeitamente possível ser um analista do comportamento, e tratar seus pacientes de maneira respeitosa e inclusiva, apesar de ser criticável a partir de seus pressupostos, como eu mesmo já fiz aqui.
A psicologia é uma ciência pré-paradigmática, no dizer de Thomas Kuhn, Físico, Filósofo e Historiador da Ciência. Ainda não temos consenso empírico construído para unificar as diferentes abordagens, embora eu mesmo esteja trabalhando nesta direção integrativa, e não estou só, nessa jornada.
Pais já defenderam coisas MUITO piores.
A popularidade da ABA é alimentada por uma defesa fervorosa que, por vezes, até legitima práticas controversas. Estou neste ramo desde que as pessoas só conheciam a ABBA com dois “B”s, que é uma banda sueca. Já vi muita barbaridade.
A maior delas, no entanto, foi a defesa apaixonada do uso de práticas aversivas de ABA com pessoas autistas. Pais eram defensores fervorosos de choque elétrico e de borrifar substâncias amargas no nariz de pessoas autistas, tudo em nome de
Mas e quando eu e a mãe dele não estivermos mais aqui na Terra?
Ainda há quem defenda técnicas aversivas, como choques ou restrições físicas, em casos extremos. Só não o fazem abertamente, porque pega mal. Muito mal. E pega mal sabe por quê? Porque existem associações de autistas no mundo inteiro contando essa história.
Aqui, no Brasil, eu e Fátima Dourado, Argemiro e Marienne Garcia, e tantos outros Brasil afora, fundamos a ABRAÇA em 2008, uma das associações acusadas no vídeo (e, curiosamente não nomeadas).
Um dos motivos de termos rompido com a ABRA e partido na direção da defesa de direitos, foram diversas discordâncias a respeito de temas sensíveis como chamar as coisas pelo nome. “Terapia Aversiva” só é nomeada assim por terapeutas punidores, que chamamos claramente de abusadores. Para quem recebe, sempre foi tortura.
Neste artigo, exploro esse histórico sombrio da ABA, contando a história do vovô nazista que era Ole Ivar Lovaas, que boa parte de quem trabalha com ABA detesta lembrar que torturou autistas e converteu homossexuais, na década de sessenta, .
Em um apelo típico dos cultos religiosos mais exacerbados, quase rezando para um pneu científico, o vídeo continua:
“Um dos meus filhos precisa de ABA pra não se machucar, pra não se mutilar. Não é um comportamento inadequado pra sociedade que eu quero que ele corrija.”
Entendo, amigo. Seu filho precisa de suporte. Mas suporte é uma palavra grande demais. ABA é mais curto.
Alternativas Existem, e sempre existiram.
Barry Prizant, proponente do SCERTS, e autor do best seller Humano à sua maneira, está em campo desde os anos 1970 oferecendo a mesma abordagem humana a pessoas autistas, com um respeito intrínseco à integridade física e psicológica de dessas pessoas, enquanto outros, na mesma época, afogavam crianças e adolescentes em nome da ciência.
Neste vídeo, apresento o Processamento Preditivo(PP), uma forma de compreender o autismo como uma diferença inicial na maneira de processar a entrada sensorial, e desembocando numa dificuldade de antecipar eventos, especialmente eventos sociais.
Mas essas alternativas são complexas, e requerem mais do que um vídeo de TikTok para serem compreendidas. Eu mesmo estou na jornada para ler a bibliografia, em sua esmagadora maioria, produzida em língua inglesa. Já a ABA, se estabeleceu no Brasil, e através de estudos cuja validade é sobejamente questionável, tornou-se a queridinha dos médicos, que, ao contrário dos cientistas (não, médico não é necessariamente cientista), detestam não saber das coisas, que é o que impulsiona a ciência, no fim das contas.
Então dizer “seu filho precisa de ABA” é mais rápido e fácil do que dizer: “seu filho precisa de um suporte multiprofissional que apoie e respeite o desenvolvimento de sua subjetividade, desenhando estratégias de suporte individualizadas para o desenvolvimento da Comunicação Social e da Regulação Emocional, de uma maneira Transacional”.
Para o pai do vídeo, é tudo muito mais fácil:
ABA é uma abordagem comprovada cientificamente no mundo inteiro, que dá resultado pra autistas, principalmente em nível 2 e 3. Só aqui no Brasil que apareceu esse absurdo. Esse aqui não é um vídeo político partidário. Esse é meu manifesto como pai.
Note a ênfase em que o vídeo não é político partidário. Eu não teria tanta certeza.
Essa associação não me representa. Isso é um crime contra a saúde dos meus filhos. E fica a reflexão: Quem realmente se beneficia desse dossiê? Os autistas ou os planos de saúde? Compartilhe aí pra ajudar a combater essa ameaça. E muito obrigado.
Qual associação? pelo menos três recomendaram a fiscalização de práticas terapêuticas para prevenir abuso. A parte que doeu foi quando associamos o regime de terapia intensiva a uma manicomialização disfarçada. É uma metáfora. E Terapia Aversiva é outra figura de linguagem: eufemismo.
Existe abuso em clínicas brasileiras ainda. Não é uma coisa do passado. E gente como esse “paizinho” cata-likes defendia tortura no século passado, ABERTAMENTE.
Como medir o sucesso?
No caso de ABA, é através da aquisição de comportamentos desenhados a priori como prescrições para um paciente, no estilo de relação especialista – leigo. O paciente não é a melhor pessoa para desenhar intervenções, neste modelo. Mas e se considerarmos o contexo, numa visão mais 4E da cognição? Muito complicado. Mais difícil de vender. Mas será que é menos científico por isso?
O SCERTS mede tanto os comportamentos dos pacientes (definidos como meta aberta, não como prescrição fechada) quanto os dos terapeutas. Na ausência de certas atitudes deles, como o controle compartilhado da relação, não estamos aplicando o modelo SCERTS.
SCERTS significa Comunicação Social, Regulação Emocional e Apoio Transacional. Tudo o que o filho daquele senhor do vídeo precisa. Só que o Transacional implica em ouvir também a opinião da pessoa autista, para a qual a terapia foi desenhada. Se está tudo bem, se não há abuso, porque temer a fiscalização? Foi só isso que pedimos à ministra (falando aqui como membro da ABRAÇA). Só soubemos do tal dossiê depois.
Não São Apenas Diferenças Semânticas.
Embora possamos pensar que desenvolver habilidades e garantir a segurança das pessoas que são apoiadas seja comum entre ABA ou SCERTS , a diferença está nos princípios éticos e filosóficos de cada abordagem. Na prática, essas diferenças geram impactos mais profundos:
- ABA: Frequentemente mede o sucesso pela conformidade e adaptação comportamental. Facilmente se tornar normalizadora, uma vez que se concentra no controle do comportamento, e não raro visa a adequação do indivíduo às normas sociais.
- SCERTS: Mede o sucesso pela promoção de habilidades adaptativas, através do controle compartilhado da relação, respeitando a autonomia e a agência das pessoas, focando no bem-estar e no contexto individual.
Essa distinção entre “controle comportamental” e “autonomia adaptativa” não é apenas semântica. Afeta diretamente a forma como as pessoas autistas se sentem em seu processo de desenvolvimento.
O Mercado do Autismo
A ABA se consolidou como uma abordagem dominante, respaldada por publicações científicas e campanhas de divulgação também porque é uma abordagem de fácil entendimento. Isso pode resultar numa cultura terapêutica que marginaliza alternativas mais complexas e efetivas, como o SCERTS, ou a Cognição 4E.
A ABA é promovida como a única abordagem “cientificamente validada”, o que impede a busca de outras práticas e desencoraja a sua exploração. Sua adoção brasileira é muitas vezes feita sem qualquer preocupação com especificidades culturais, como se a psicologia (e ABA é uma forma de psicologia, não importa o que digam seus epistemólogos hoje em dia) fosse uma ciência que lidasse com fenômenos que se manifestam universalmente do mesmo modo. E não são. Seres Humanos variam enormemente em sua expressão cultural, e de acordo a estudos neurocientíficos, até mesmo a percepção se altera entre as culturas.
Os Innuite, que chamávamos Esquimós, têm, por exemplo, nomes diferentes para tonalidades de branco, e as tratam formalmente como se fossem cores diferentes. Se nem as cores são universais, porque o autismo, que é, em sua origem, um mero artefato estatístico, seria?
“Quem realmente se beneficia desse dossiê? Os autistas ou os planos de saúde?”
Será que existem apenas estes dois grupos de interesses? E quanto à indústria ABA, com formações caríssimas no exterior, e sem qualquer validação brasileira?
Repensando a ABA e Explorando Abordagens Inclusivas
Esse vídeo demonstra como questões complexas, sobre as quais ainda não há consenso são levianamente tratadas como questões de reserva de mercado, com táticas manipulativas de marketing, que fazem de “vítima”, pessoas como o autor deste vídeo.
Seu discurso está eivado de meias verdades e fragmentos de táticas de recrutamento de seita, que foram popularizadas pela extrema direita, mas que são derivativos diretos de uma cultura que consome muito e reflete pouco. Essa é a cultura das redes sociais e seus algoritmos de Inteligência Artificial que, na impossibilidade de compreender e interagir com a nossa complexidade, nos simplificam, para magnetizar os nossos globos oculares no intuito de vender soluções irrelevantes para problemas que não temos, mas também soluções rápidas e equivocadas para os que temos.
Um avanço significativo, inclusive para os analistas do comportamento, seria parar de vender siglas e vender atitudes de acolhimento e inclusão. Num mundo ideal, terapeutas são pacientes também, porque somos todos humanos e é a nossa união que faz a nossa força.
Mas não estamos nesse mundo, e onde houver qualquer pessoa autista, submetida a qualquer tipo de abuso, travestido ou não de terapia, nós estaremos lá para denunciar e impedir, ou morrer tentando. Porque somos terapeutas, mas também somos pais e —porque esconder, nessa altura do campeonato — também neurodivergentes.








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