Este pequeno ensaio inspirou-se (livremente) na leitura do capítulo 03 do livro The Oxford Handbook of 4E Cognition1, Ecological-enactive cognition as engaging with a field of relevant affordances The Skilled Intentionality Framework (SIF). Estou desenvolvendo uma série de reflexões sobre a Cognição 4E2, (encarnada, enraizada, enativa e estendida) com o objetivo de estabelecer (inclusive para mim mesmo, que passei anos com a cabeça enterrada neste chão metafórico) que existe psicologia científica fora do chauvinismo behaviorista.
Dando continuidade ao meu último artigo aqui, “Cognição Estendida: Explorando as Fronteiras da Mente“, que explorou o conceito de cognição estendida, vamos agora nos concentrar na cognição ecológica e enativa, essencial para entender como nosso comportamento emerge da interação com o ambiente.
A despeito de uma visão estritamente competitiva, derivada da ideia de sobrevivência do mais apto, da Teoria da Evolução das Espécies, O mundo não é apenas um lugar cheio de perigos. É também um palco, onde seres vivos interagem com a materia inanimada, criando oportunidades de ação (affordances), que por sua vez, lhe modificam de volta.
A psicologia ecológica é uma abordagem, desenvolvida pelo psicólogo estadunidense James J. Gibson (1904–1979)3, que enfatiza a percepção direta do ambiente, sem a necessidade de processamento cognitivo intermediário.
Gibson argumentou4 que a mente percebe diretamente os estímulos ambientais, Suas contribuições tiveram um impacto significativo em diversas áreas, incluindo psicologia, design e interação humano-computador, ao fornecer uma compreensão mais profunda de como interagimos com nosso ambiente. Sua perspectiva enriquece a nossa visão sobre comportamento, levantando questões sobre como nos relacionamos com os outros e com o mundo.
Na psicologia ecológica, a ênfase não está no agente individual, mas no tipo de relacionamento que ele estabelece com seu ambiente, com seu nicho, que pode ser definido com um conjunto de afordâncias (decidi usar a partir daqui este anglicismo, que é usado em contextos acadêmicos5 na discussão deste assunto).
Dentro do marco referencial da Cognição 4E, a psicologia ecológica, seu entendimento de ecologia como interação e interdependência, e seu conceito central (as afordâncias, os convites para a ação do ambiente), praticamente equivale ao terceiro “e”, a cognição enativa.
Cada elemento do ambiente é uma oportunidade de ação. O contexto e as habilidades determinam como essa ação acontecerá. Para um escalador novato, por exemplo, apenas algumas pedras parecem viáveis como apoio; para um alpinista experiente, a mesma paisagem revela uma rede complexa de possibilidades.
A cognição ecológica nos convida a perceber que o mundo não é um espaço estático, cheio de coisas usáveis, mas um ambiente dinâmico, que se transforma em conjunto com outros agentes, de acordo a nossas habilidades e percepções.
Essa dança constante com o ambiente não se limita à nossa espécie. Outros animais também ajustam o ambiente às suas necessidades. Alguns Insetos prendem bolhas de ar para nadar, explorando novas possibilidades de ação. Grilos-toupeira cavam tocas que funcionam como amplificadores, modificando o ambiente para atrair as fêmeas à distância. Recifes de corais moldam seu habitat, criando um ambiente favorável à biodiversidade.
Todos esses exemplos demonstram como os organismos não apenas se adaptam de um modo passivo, mas também moldam seus próprios ambientes, criando nichos dentro de seus ecossistemas. Isso me faz refletir sobre como é arbitrária a linha entre organismo e ambiente.
Nossa tecnologia, por exemplo, não é apenas um conjunto de ferramentas. Ela expande nosso alcance e, em certo sentido, são uma extensão de nós. Tome o Telescópio James Webb, por exempo: Ele nos faz enxergar mais longe do que jamais fomos capazes, testando o poder preditivo de nossas equações astronômicas.
Tal como grilos e corais, manipulamos nosso ambiente com tecnologia, criando novas afordâncias, que vão nos moldando de volta. Isso, nem sempre de maneira adaptativa: adicção a smartphones, por exemplo, é um problema real, conducente a outros problemas. É como se construíssemos casas e, depois de nos trancarmos por dentro, perdêssemos a chave.
Isso nos leva a um dilema conceitual na ciência cognitiva: há ou não a necessidade de representações mentais do mundo para que possamos agir? A Cognição Incorporada Radical (REC) questiona essa noção.
A ciência cognitiva surgiu e se firmou através do clássico Modelo Representacional e Computacional, a metáfora da mente como um computador, uma “caixa preta” que recebe entradas sensoriais de um mundo concreto, feito de objetos (que é como se nos apresenta), transforma este mundo em representação mental, e devolve emoção, pensamento e comportamento para o ambiente.
Como discutimos anteriormente, em um artigo sobre PP e Cog4E, esta visão radical encontra um parceiro de dança ao mesmo tempo desafiador e promissor no arcabouço teórico do Processamento Preditivo. Talvez seja o caso de termos, enfim, representações mentais.
Não seriam elas estáticas, como um mapa de papel, mas como aqueles mapas dinâmicos de aplicativos de GPS que acompanham o tráfico em tempo real e são capazes de gerir as interações de milhares de motoristas em um trecho congestionado da cidade, melhorando o fluxo do tráfego.
Em vez de mapas mentais detalhados, os enativistas radicais6 sugerem que podemos nos envolver habilmente com o ambiente sem a complexidade das representações internas. Um artesão experiente criaria algo bonito e funcional porque o conhecimento está em suas mãos em movimento.
Combinada ao PP, essa é uma ideia poderosa para a psicologia, na área da educação e, claro, para a psicoterapia.
A cognição ecológica e enativa nos oferece uma maneira instigante de pensar sobre as nossas relações sociais. Tradicionalmente, vemos a compreensão do outro como simples inferência de pensamentos e sentimentos que, à primeira vista, estão ocultos para nós.
Para o paradigma do enativismo cognitivo, porém, a compreensão social é uma construção conjunta, por meio de interações diretas. Isso muda o foco da ideia de decodificar o que se passa na cabeça do outro, para uma atitude muito mais orgânica: o ato de criar significado conjuntamente, aqui e agora. Se a cognição social é colaborativa, as habilidades sociais são moldadas pelas interações.
Em uma conversa significativa, os pensamentos vão se refinando através da troca contínua.
Isso tem grandes implicações para a psicoterapia. Dessa perspectiva, ela não é apenas um “trabalho de detetive” para descobrir pensamentos e sentimentos disfuncionais ocultos. Ela pode ser um meio de ajudar as pessoas a perceber como influenciam e são influenciadas em suas interações cotidianas, e como mudar o seu papel nestas interações pode gerar novos significados para cada participante.
Neste contexto, a psicoterapia seria apenas mais um tipo de relacionamento humano, com uma dimensão comercial, uma dimensão simétrica (como as relações entre amigos, com o mesmo peso de responsabilidade para os dois lados da relação) e uma dimensão assimétrica (como as relações parentais, com pesos diferenciados entre os dois lados da relação).
Isso se reveste de um significado ainda mais incrível, se mencionamos grupos. Neles, criamos significados de um modo que, nos seria impossível criar sozinhos, como abordamos em nosso artigo sobre a redes de suporte para adultos autistas.
Em vez de uma psicoterapia focada em conteúdo, podemos olhar para o processo — colaboração e seu resultado, a criação conjunta de significado. Podemos levar a linguagem corporal, o tom de voz e o ambiente físico em conta, no planejamento das nossas intervenções terapêuticas. Mais do que nunca, torna-se claro que a mente é uma construção coletiva, enativa e situada, um processo constante de adaptação e engajamento com o mundo e com os outros.
Essa perspectiva vê a mente não como aquilo que o cérebro faz, mas como algo que emerge na relação entre cada organismo e seu ambiente físico e social. Isso redefine o que é cognitivo e sugere novas abordagens para aprendizagem, terapia e relacionamentos.
Se você chegou até este ponto, nada vai te impedir de deixar um comentário aí embaixo. O propósito deste Blog é o debate aberto e continuado de idéias sobre estes assuntos que estão mobilizando meu hiperfoco agora: a natureza da mente. Então, deixe aí a sua ideia!
- NEWEN, A.; DE BRUIN, L.; GALLAGHER, S. (orgs.) The Oxford Handbook of 4E Cognition. Oxford: Oxford University Press, 2018. ↩︎
- ROWLANDS, M. The new science of the mind: From extended mind to embodied phenomenology. Cambridge, MA, US: MIT Press, 2010. p. 3 ↩︎
- O conceito de “affordances” e a abordagem da psicologia ecológica foram desenvolvidos pelo psicólogo americano James J. Gibson (1904–1979). Gibson introduziu o termo “affordance” para descrever as oportunidades de ação que o ambiente oferece aos organismos, enfatizando a relação direta entre percepção e ação. Sua teoria propõe que percebemos o mundo não apenas em termos de suas propriedades físicas, mas também em termos das possibilidades de interação que ele nos proporciona.(Wikipedia) ↩︎
- GIBSON, James J. The Ecological Approach to Visual Perception. Boston: Houghton Mifflin, 1979. ↩︎
- EDUFSCAR. Documento disponível para download. Disponível em: https://edufscar.com.br/index.php?route=account/download/download_pdf&download_id=62&acao=download. Acesso em: 27 nov. 2024. ↩︎
- Entre os principais trabalhos sobre o tema estão: Hutto e Myin, Radicalizing Enactivism (2013); Chemero, Radical Embodied Cognitive Science (2009); Noë, Action in Perception (2004); e O’Regan e Noë, A Sensorimotor Account of Vision and Visual Consciousness (2001). Outros autores relevantes incluem Evan Thompson, Mark Rowlands e Michael Kirchhoff, entre outros. Para mais informações, explore obras que discutem a abordagem 4E, incluindo o enativismo radical. ↩︎








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