Não há fronteiras entre mente, corpo e política
O livro “The Mind-Body Politic”, de Michelle Maiese e Robert Hanna (Maiese & Hanna, 2019), discorre, a partir do ponto de vista da tradição intelectual enativa da ciência cognitiva1, sobre como o neoliberalismo se tornou a narrativa dominante em nossa sociedade, e apresenta alternativas para reverter esse processo destrutivo.
Os autores argumentam que a fragmentação e o isolamento individualista preconizados pelo neoliberalismo, entram em conflito com nossa natureza fundamentalmente corporal e gregária, e exploram a idéia de que grupos marginalizados, precisam se organizar para fazer frente a essa ideologia dominante destrutiva.
Este artigo é uma reflexão sobre os argumentos centrais do livro e sobre a centralidade da comunidade autista para a construção de utopias que se contraponham à distopia neoliberal.
Neoliberalismo e Biopolítica
O neoliberalismo não é apenas uma ideologia econômica, mas uma racionalidade política que molda todas as esferas da existência (Amaral, 2018). Esse processo de colonização da vida pelo mercado é descrito por Foucault como “biopolítica”, um modo de exercício do poder que toma a vida como objeto de gestão e controle. (Caponi, 2012)
Como argumentam Maiese e Hanna, o neoliberalismo é uma filosofia e uma visão de mundo que fragmenta e isola as pessoas, transformando-as em recursos a serem otimizados e explorados. Essa lógica desumanizadora atinge principalmente os grupos marginalizados. Neurodivergentes, por exemplo, com dificuldade de se adequar aos padrões “normais” de produtividade e sociabilidade, são, frequentemente alvo de pena, assistencialismo e deboche.
Adicionalmente, as pessoas estão na intersecção de vários destes grupos, agravando os efeitos práticos de sua exclusão. A “normalidade”, neste modelo, fica condicionada à “utilidade” dos corpos e das mentes.
Isso contrasta diametralmente com nossa natureza fundamentalmente diversa, gregária e coletiva. Através de uma fragmentação instrumental, o neoliberalismo produz solidão, reduzindo nossa solidariedade à caridade e nosso senso de pertencimento a um tribalismo bairrista, em vez de promover um senso coletivo de autorreconhecimento como parte integrante da família humana.
Faz isso inclusive para se proteger, porque, como argumentam os autores, nossas mentes intrínsecamente incorporadas e distribuídas poderiam destruir muito mais facilmente seus incentivos à competição e exploração.
Indivíduo e Comunidade
Como resposta a essa situação, Maiese e Hanna propõem a rejeição da visão neoliberal individualista, e o resgate de nossa condição de seres mentais/corporais pertencentes a uma comunidade de corpos, potencialmente construtores de pontes2.
Isso implica rejeitar a ficção do “indivíduo racional” e reconhecer a nossa natureza orgânica, vulnerável e co-dependente – características frequentemente associadas a pessoas deficientes em geral. São, no entanto, características humanas universais. “Together we stand, divided we fall”3.
Todas as instituições da maioria das sociedades contemporâneas são moldadas pela lógica neoliberal, o que torna a tarefa de imaginar e construir alternativas extremamente desafiadora. As pessoas podem discordar a respeito de religião, política ou filosofia, mas quase todas aceitam, implicitamente, por exemplo, que seres humanos são seres intrínsecamente egoístas e motivados pelo autointeresse, a premissa fundamental do neoliberalismo.
O que é neoliberalismo
Neoliberalismo é uma ideologia econômica e política que promove um modelo de sociedade baseado no livre mercado, na privatização e na redução do papel do Estado. Para isso, se apoia na crença de que os indivíduos são seres intrínseca e naturalmente racionais, egoístas e autointeressados, e que a competição é a forma mais eficiente de organizar a sociedade.
A família, o sistema de ensino, o sistema legal e jurídico, o aparato repressor do estado, as igrejas, o aparato de comunicação de massa, as redes sociais, os sistemas de saúde mental, com suas classificações e a crescente medicalização de todos os aspectos da existência, tudo isso produz e reproduz essa mentalidade neoliberal, transformando-nos em consumidores e trabalhadores eternamente insatisfeitos e ansiosos, sempre buscando otimizar nosso desempenho, mas nunca livres para nos definir fora destes moldes.
Em um artigo escrito este ano, (Jurgens, 2024) Alan Jurgens, concorda em grande parte com as ideias de Maiese e Hanna em “The Mind-Body Politic”, mas argumenta que uma análise narrativa4 oferece uma compreensão mais profunda dos mecanismos pelos quais as ideologias se manifestam. Ele acredita que as narrativas desempenham um papel fundamental na formação de nossas percepções, experiências, hábitos cognitivos e enquadramentos afetivos.
O neoliberalismo, portanto, não deve ser visto apenas como uma ideologia econômica, mas como uma “narrativa mestra”5 que permeia diversos aspectos da vida social, moldando nossa própria subjetividade.
Para contrapor a narrativa neoliberal dominante, Jurgens sugere a construção de “contra-narrativas”6 que desafiem os pressupostos dessa ideologia e promovam visões alternativas de sociedade.
Para Jurgens, a ideia de “contra-narrativas” é fundamental para implementar a proposta de Maiese e Hanna, que defendem a organização de grupos marginalizados, em oposição à distopia neoliberal.Ele enfatiza que as narrativas socioculturais, ou seja, aquelas que estabelecem, moldam e reforçam crenças, práticas culturais e estruturas sociais, são fundamentais para a disseminação e internalização de ideologias. Essas narrativas atuam como “filtros” através dos quais interpretamos o mundo e desenvolvemos padrões de pensamento e comportamento.
Jurgens argumenta que a análise de Maiese e Hanna pode muito bem sair pela culatra (backfire, no original), quando as pessoas simplesmente resistem a informações que desafiam suas crenças. Pense na tentativa de convencer um bolsonarista que participou da tentativa de golpe de 2023 de que não houve fraude eleitoral em 2022. Nem mesmo a prisão demoveu muitos deles dessa idéia alucinada.
De modo análogo, Jurgens argumenta que simplesmente apresentar uma alternativa narrativa ao neoliberalismo pode esbarrar em “Muros Cognitivos”7, mecanismos psicológicos de resistência à mudança. Portanto, ele enfatiza a importância de desenvolver estratégias narrativas que não apenas ofereçam uma visão alternativa, mas que também desmontem a lógica da narrativa neoliberal, exponham suas falácias e contradições, engajando emocional e existencialmente as pessoas, como só as narrativas conseguem fazer.
O Coletivo Autista da Casa da Esperança
É nesse contexto que a proposta de Maiese e Hanna ganha relevância. Eles argumentam que grupos marginalizados, como os neurodivergentes, em nosso caso, podem desempenhar um papel crucial na construção de narrativas alternativas que contradigam a visão neoliberal do indivíduo e da sociedade.
Minha proposta é que o grupo Neurodivergentes, e a própria Casa da Esperança representam uma dessas contranarrativas. A Casa da Esperança tem raízes no psicodrama, cuja formulação enfatiza o poder transformador da co-criação de narrativas para a modificação de padrões de pensamento e comportamento.
A Casa da Esperança é uma das organizações mais antigas de atendimento a pessoas autistas em nosso país. Existimos desde 1993, quando a ABA mais conhecida tinha dois “B”s e era uma banda sueca cantando em inglês. Éramos apenas 10 famílias então, e hoje atingimos uma comunidade de mais de mil pessoas, entre colaboradores, pessoas autistas e suas famílias. Atendemos pelo Sistema Único de Saúde, para derrubar barreiras de acesso.
Nosso trabalho se baseia na premissa de que as pessoas autistas são sujeitos de direitos, com potencial para protagonizar suas próprias vidas, e não meros objetos de intervenção médica ou terapêutica. Construímos, transacionalmente8, narrativas que nos dão voz e visibilidade, quebrando os estereótipos e estigmas que nos aprisionam, constrangem e escravizam nossos corpos e mentes, conformando-os aos moldes neoliberais de objetificação humana.
Nossas ações buscam difundid a ideia de que “normalidade” é um padrão flexível, e que a diferença não é algo a ser corrigido, eliminado ou ignorado. Ao invés disso, celebramos a neurodiversidade como uma riqueza e fonte de criatividade, que caracteriza intrinsecamente a resistência e a força coletiva da nossa espécie.
Além disso, rejeitamos a narrativa neoliberal que nos reduz a meros consumidores ou trabalhadores, e nos afirmamos como sujeitos capazes de construir vidas plenas e felizes, em comunidade, com base em nossos próprios valores e projetos de vida.
Essa perspectiva nos permite imaginar narrativas e utopias sociais que contrastam radicalmente com a distopia neoliberal que nos é imposta. Utopias em que a solidariedade, a cooperação, o cuidado mútuo e a valorização da diversidade sejam os pilares de uma sociedade mais justa, igualitária e sustentável.
Neoliberalismo: A Narrativa Dominante
O neoliberalismo, como argumenta Jurgens, é muito mais do que uma ideologia econômica. É uma “narrativa mestra” que permeia diversos aspectos da vida social, moldando nossa própria subjetividade.
Essa narrativa nos apresenta como indivíduos auto-suficientes, racionais e competitivos, cujo valor se mede pelo desempenho, produtividade e capacidade de gerar riqueza. Ela nos ensina a ver o mundo como um imenso mercado onde tudo, inclusive nós mesmos, deve ser otimizado para o máximo rendimento.
Essa visão individualista e utilitarista nos isola e nos faz sentir solitários e desconectados, enquanto o senso de pertencimento é essencial para nosso bem-estar. Ela nos leva a internalizar a culpa e a vergonha por não correspondermos aos padrões de “sucesso” impostos, ao mesmo tempo em que nos torna incapazes de enxergar as estruturas sistêmicas que produzem desigualdade e opressão.
Ela nos faz pensar que temos que ser sempre bem-sucedidos e felizes. Cometer erros é parte essencial de aprender, e sentir tristeza valoriza e dá significado para os nossos momentos felizes. Cada aspecto da nossa experiência contribui para o todo.
Deste modo, a narrativa neoliberal não apenas legitima e perpetua um sistema econômico predatório, mas também molda nossa própria experiência subjetiva, nossos desejos, nossos sonhos e nossa visão de mundo para sermos instrumentais a este sistema.
É a partir de dentro de nossas próprios mentes e corpos que precisa ser combatida. O que está dentro, no entanto, é plantado a partir de interações significativas e não-violentas, como afirmam Maiese e Hanna. E depende do engendramento de novas narrativas alternativas, que se contraponham à narrativa dominante, como afirma Jurgens.
Recursos Naturais e o Esgotamento da Sociedade
Um dos motivos para a narrativa neoliberal ser combatida, é que ela também promove uma relação predatória com o meio ambiente, tratando os recursos naturais como meras “externalidades” a serem exploradas e consumidas sem limites.
Pessoas de todas as culturas são seres que não apenas dependem da natureza para sobreviver, explorando seus recursos. Somos “mente-corpos” que se estendem, formando uma unidade com ela, incluindo toda a vida que nos rodeia, alimenta e inspira, como já reconheciam culturas originárias em todos os continentes.
O modelo neoliberal de desenvolvimento é insustentável: Esgota nossos ecossistemas, fragiliza os laços sociais, enfraquece nossas instituições e destrói o nosso futuro como espécie.
Diante disso, a idéia de criar narrativas emancipatórias e utopias concretas para mudar essa realidade ganha ainda mais relevância. Ela nos convida a imaginar novos modos de viver em comunidade, valorizando a diversidade, cultivando a solidariedade e o cuidado mútuo, e estabelecendo uma relação harmônica com a natureza.
Nesse sentido, a experiência do Coletivo Autista da Casa da Esperança é instrumental. Desde o começo, nos insurgimos contra essa fragmentação do neoliberalismo, que normatiza os nossos corpos e padroniza nossos costumes.
Utopias que Desafiam a Distopia
Pessoas no espectro autista são potenciais disruptores dessa narrativa mestra. As peculiaridades em elaborar e atualizar nossos modelos internos do mundo em interação com as outras pessoas pode ser um facilitador da construção de novas narrativas coletivas.
Isso porque muita gente autista, habilitada a criar significado compartilhado, tem mudado costumes e criado novas comunidades que desafiam a lógica reificadora do neoliberalismo.
Nós, neurodivergentes, estamos na posição de, organizados em coletivos, e interligados entre nós, desafiarmos a lógica de que as pessoas são ferramentas de uma máquina desumanizadora de moer sonhos e pessoas.
A experiência da Casa da Esperança é um exemplo concreto de como grupos de neurodivergentes podem construir narrativas alternativas de efeito concreto9, que nos libertem dessa distopia neoliberal. É por esse motivo que alguns nos querem fora do mercado do autismo, fazendo pressão econômica para nos desarticular como comunidade. Jamais conseguirão.
A partir de dentro, criamos comunidades de cuidado e afeto, onde valorizamos a diversidade e nos colocamos como protagonistas de nossas próprias histórias. Ao invés de sermos meros objetos de intervenção, nos afirmamos como sujeitos de direitos, com capacidade de imaginar e construir futuros melhores.
Essa luta é dura e constante, pois o neoliberalismo tem um gigantesco aparato, mundialmente articulado de poder e privilégio a seu serviço. Tem o Modelo Médico da Deficiência10 a seu serviço. Mas nós também somos muitos. Nossa união é a nossa maior força, o que nos permite resistir a essa distopia desumanizadora e construir, juntos, utopias verdadeiramente transformadoras.
Imaginando Novos Futuros Possíveis
Imagine um mundo em que nossas relações não fossem pautadas pelo mero uso, mas também pela troca, afetiva e material. Imagine uma sociedade em que a diversidade fosse valorizada, e não temida, discriminada, ou assimilada.
Imagine uma universidade que não opere apenas como uma fábrica de insumos para o mercado de trabalho, mas como um lugar de diálogo, descoberta científica, debate respeitoso e responsável, criação e transformação social.
Imagine uma família como um grupo de pessoas que se amam, independente de sua identidade de gênero ou orientação sexual.
Imagine a humanidade como uma rede de coletivos que cuidam mutuamente de si e do planeta. Pessoas autistas como Greta Thunberg, e outros ativistas autistas, operando em rede, precisamente por sua perspectiva “alienígena”, são capazes de enxergar a realidade com uma acuidade e profundidade que os neurotípicos, presos aos padrões convencionais de pensamento, dificilmente conseguem alcançar.
Imagine um cenário pré histórico em que as mulheres de uma tribo dançam em torno de um “boy magia das cavernas”, que volta da caçada banhado de suor e sangue, contando seus feitos e seu heroísmo, que se transformarão em histórias que atravessarão gerações através da narrativa oral.
Esse cara, e essas mulheres, deveriam ter irmãos e irmãs com certas fragilidades. Um irmão do “boy magia”, talvez fosse um nerdinho que não gostava de sair da caverna, porque era muito claro e barulhento lá fora.
Ele preferia ficar no escuro batendo uma pedrinha na outra. Ele tinha uma coleguinha que detestava o cheiro de suor e sangue: era muito mais confortável acompanhar o garotinho frágil em seus rituais repetitivos na caverna. E ela tinha o seu próprio: rolava uma grande pedra pelo chão, repetitivamente.
Quem você acha que inventou o fogo e a roda?
Conclusão: Utopia como Horizonte de Luta
Nós, neurodivergentes, sempre estivemos na vanguarda da construção de novas narrativas. Cientistas, Artistas, Poetas, Profetas, e Visionários de todos os tempos sempre divergiram da norma. Nossa atenção sistemática se volta para as relações entre os fenômenos; inventamos a ciência; a busca de padrões; a arte de vanguarda.
Conseguimos nos concentrar individual e coletivamente em compreender os mecanismos de funcionamento do mundo. Não há motivo para que não consigamos, funcionando em rede, sem esquecer nossas singularidades, hackear as estruturas de poder que nos oprimem há séculos, fazendo de nós mercadorias e consumidores, e colocá-la a pique11.
Essa lógica é perversa, e nós temos, coletivamente, o poder de criar contranarrativas, como a história dos nerdinhos das cavernas, para nos estabelecer como grupo humano, ou nas palavras do saudoso Steve Silberman (Silberman, 2015), uma Neurotribo.
Referências
- Maiese, M., & Hanna, R. (2019). The Mind-Body Politic. In Springer eBooks. Springer Nature. https://doi.org/10.1007/978-3-030-19546-5
- Amaral, A. J. do. (2018). Biopolítica e Biocapitalismo: implicações da violência do controle. In Veritas (Porto Alegre) (Vol. 63, Issue 2, p. 515). Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (EDIPUCRS). https://doi.org/10.15448/1984-6746.2018.2.30794
- Caponi, S. (2012). Classificar e medicar: a gestão biopolítica dos sofrimentos psíquicos. In Revista Internacional Interdisciplinar INTERthesis (Vol. 9, Issue 2). Universidade Federal de Santa Catarina. https://doi.org/10.5007/1807-1384.2012v9n2p101
- Jurgens, A. (2024). Master Narratives: Ideology Embedded and Embodied (Vol. 6, Issue 1, p. 20). https://doi.org/10.33497/2024.summer.3
- Silberman, S. (2015). Neurotribes: The legacy of autism and how to think smarter about people who think differently. Allen & Unwin.
- O paradigma enativo, em síntese, propõe que a cognição não é um processo puramente cerebral, mas sim uma atividade que emerge da interação contínua entre cérebro, corpo e ambiente. Ele se distingue de outras abordagens, como o paradigma computacional, que trata a mente como um processador de informações abstrato, separado do corpo e do mundo. Estes paradigmas têm convergido nos últimos anos, através dos trabalhos de filósofos como Andy Clark e outros. ↩︎
- Para lembrar uma querida amiga de Joinville (sim, tem vida inteligente lá), Sheila Gomes. ↩︎
- Pink Floyd. (1979). Hey you. No álbum The Wall [Música]. Harvest Records. Disponível em https://music.youtube.com/watch?v=soL8JK6kALc ↩︎
- Análise narrativa é o estudo de como histórias e narrativas estruturam a experiência humana, a identidade e as práticas sociais. Ela examina o conteúdo, a forma e o contexto das narrativas para entender como as pessoas constroem significados, compartilham experiências e articulam crenças e valores. Esse método investiga padrões ideológicos, afetivos e culturais presentes nas narrativas, explorando como influenciam as ações individuais e coletivas, e como moldam ou refletem relações de poder, identidade e mudanças sociais. ↩︎
- Narrativa mestra é um conjunto dominante de crenças, valores e formas de dar sentido ao mundo que orienta a organização social, cultural e política de uma sociedade. Essas narrativas fornecem estruturas discursivas que legitimam identidades, práticas e relações de poder, servindo como base para ideologias e influenciando como os indivíduos e grupos entendem a si mesmos, os outros e o ambiente ao seu redor. Elas se manifestam em narrativas locais e pessoais, moldando hábitos, afetos e cognições. Um exemplo clássico é o “Sonho Americano”, que promove ideais neoliberais de mérito e esforço individual. ↩︎
- Contranarrativa é uma narrativa que desafia, questiona ou subverte as narrativas mestras dominantes. Ela emerge como uma forma de resistência cultural, política ou social, propondo perspectivas alternativas sobre identidades, valores, eventos ou relações de poder. As contranarrativas são usadas para dar voz a grupos marginalizados, desconstruir ideologias hegemônicas e expor desigualdades ou injustiças presentes nas estruturas dominantes. Elas desempenham um papel fundamental na promoção de mudanças sociais e na ampliação da diversidade de perspectivas dentro de uma sociedade. ↩︎
- Muro Cognitivo é uma metáfora que descreve barreiras psicológicas ou mentais que dificultam a compreensão, aceitação ou integração de novas ideias, informações ou experiências que contradizem crenças, valores ou narrativas já internalizadas. Essas barreiras podem surgir de fatores como viés de confirmação, dissonância cognitiva, falta de acesso a informações, ou resistência emocional e cultural a mudanças. O conceito é usado para explicar por que indivíduos ou grupos podem rejeitar evidências ou perspectivas alternativas, mesmo quando confrontados com fatos que desafiam suas visões de mundo. O “muro” pode ser superado por meio de empatia, educação crítica e exposições graduais a novas perspectivas. ↩︎
- Ou seja, em vias de mão dupla, não em intervenções unilaterais prescritivas. ↩︎
- A extrema direita tem vendido a idéia de que “narrativas” são mentiras e que a “verdade” é o que diz a narrativa deles. Mas isso não dialoga bem com fatos e evidências científicas, como aprendemos dolorosamente durante a pandemia. ↩︎
- Modelo Médico da Deficiência é uma abordagem que entende a deficiência como um problema inerente ao indivíduo, causado por condições físicas, mentais ou sensoriais que precisam ser diagnosticadas, tratadas ou corrigidas. Segundo esse modelo, a deficiência é vista como uma falha ou anormalidade biológica que limita a funcionalidade e a qualidade de vida da pessoa, exigindo intervenções médicas ou terapêuticas para alcançar uma vida “normal”. Essa perspectiva frequentemente desconsidera o impacto das barreiras sociais, culturais e ambientais sobre a experiência da deficiência, sendo criticada por reduzir a identidade e o valor do indivíduo à sua condição clínica. Em contraste, o Modelo Social da Deficiência enfatiza o papel das barreiras externas e da exclusão social na construção da experiência da deficiência. ↩︎
- Ir a pique é uma expressão idiomática que significa afundar ou fracassar completamente. Originalmente usada no contexto náutico, refere-se ao momento em que um navio submerge ou afunda rapidamente. Figurativamente, a expressão é aplicada a situações em que algo colapsa ou falha de forma irreversível, como projetos, planos, empresas ou relações. Por exemplo: “O negócio foi mal administrado e acabou indo a pique.” ↩︎








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