Filosofia do domínio no Behaviorismo Radical Contemporâneo?
Eu gosto de diversidade. De algum modo, ela historicamente define o Brasil, ainda que pelo lado marginal, como Caetano escreve em A Voz do Morto (Veloso, 1968), para Aracy de Almeida cantar:
Eu canto com o mundo que roda Mesmo do lado de fora Mesmo que eu não cante agora…
Uma das músicas da minha vida, que costumava representar o Brasil na forte e exuberante voz de Clara Nunes, é Nação (Bosco, Blanc & Emílio, 1982), escrita por João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio:
Ouro cobre o espelho esmeralda No berço-esplêndido A floresta em calda, Manjedoura d’alma
Dialoga assim, artisticamente, com a verdade, pois o Brasil não precisa ser vassalo das culturas do Norte Global. Caetano expressou isso nos anos 1980, com a Língua (Veloso, 1984):
Se você tem uma idéia incrível, É melhor fazer uma canção. Está provado que só é possível Filosofar em alemão.
Mas isso são os tempos que me fizeram. Hoje a moda é a teologia do domínio. A moda é ser todo mundo radicalmente alguma coisa. É o Weltanschauung1 do momento. É o Tauwind2 que degela a diversidade, devido a esse aquecimento global cultural, de volta ao pântano original da vida. Minha esperança é no Ewige Wiederkunft des Gleichen3.
Oxumaré dança em seu mar de lama (Bosco, Blanc & Emílio, 1982)4
É deste lugar, de Brasileiro e filho do meu tempo, que faço essa crítica ao artigo One Worldview To Rule Them All, de Zane, Weiss, Cihon, e Leaf (2023). Pule este artigo, se você for purista em relação a uma crítica inspirada no espírito enraizado5 e enativo 6 da Ciência Cognitiva, vá ler outra coisa mais reconfortante, como Sobre o Behaviorismo (Skinner, 1974).
Esse aviso é para os analistas do comportamento por quem tenho afeto pessoal, e imagino que ainda me querem bem de volta, apesar de eu ter virado provisoriamente esse grilo falante escrevendo contra a supremacia de minha antiga referência, o behaviorismo radical.
Para esses queridos, devo dizer apenas que, como Um certo capitão Rodrigo7, Hay gobierno, soy contra8. Não gosto de supremacia, porque, como disse na abertura desse artigo, gosto de diversidade. E supremacia é a morte da diversidade.
Como eu dizia, é aos amigos analistas do comportamento que me dirijo neste aviso. Aos que desejo irritar um pouco com ele, deleitem-se. Este artigo não é falseável9: Faz as mentes binárias oscilarem até a energia acabar.
A teologia do domínio é frequentemente citada como um exemplo de radicalismo devido à sua visão abrangente da soberania divina sobre todas as áreas da vida. Segundo essa perspectiva, todas as esferas sociais – política, economia, educação e cultura – devem ser moldadas pelos princípios bíblicos.
Mas ela não está só. Segundo o especialista em seitas e cultos Steven Hassan (Hassan, 2018), se aplica a qualquer seita abusiva. Essa abordagem rejeita a separação entre religião e vida pública, defendendo que a fé, seja ela qual for, deve guiar decisões individuais e coletivas. Em sociedades pluralistas, essa visão é frequentemente percebida como radical, por desafiar a ideia de neutralidade nas instituições públicas e insistir na supremacia de um sistema moral específico.
Um dos aspectos centrais do supremacismo religioso é a ideia de que o mundo está dividido entre aqueles que obedecem à vontade de Deus e aqueles que vivem à parte dela (os profanos). Esse dualismo, embora tenha raízes em crenças religiosas, se aplica também a qualquer tipo de crença: o Sapiensacredita em coisas diferentes, mas de um jeito muito parecido.
Outro ponto importante destas visões totalizantes é a rejeição ao relativismo, característica marcante de discursos supremacistas. Seus proponentes argumentam que princípios objetivos, derivados de fontes incontestáveis, devem nortear a organização social e as decisões políticas. E não se engane: ciência não está acima das questões políticas e econômicas que implicam em poder nas sociedades contemporâneas. Essas tretas de internet envolvendo a ABA não são senão uma batalha por protagonismo. Eu poderia deixar isso implícito, mas prefiro ser honesto: Quero meu lugar ao sol, e tenho o que oferecer. Como gosto de brincar, quando comecei a trabalhar com autismo, ABBA era uma banda sueca.
O Supremacismo Behaviorista em Questão
A psicologia científica teve uma longa jornada, desde Wundt e Pavlov até os dias atuais, marcada por diversas disputas teóricas e paradigmáticas. O artigo de Zane et al (2023), se insere nessa tradição, defendendo com vigor o behaviorismo radical como a única abordagem cientificamente válida para o estudo do comportamento. O título do artigo reflete tanto a natureza supremacista das intenções dos autores, quanto sua natureza nerd10.
O artigo segue pregando a convertidos, como se uma revolução cognitiva não tivesse varrido do mapa a hegemonia do condicionamento estímulo-resposta, e como se a crítica de Chomsky(1959)11 e tantos outros, aos pressupostos metodológicos do behaviorismo não tivesse abalado a confiança da maioria da comunidade científica em sua capacidade de explicar a complexidade da cognição e da linguagem humana.
Gente purista, como estes autores, de um modo obviamente desconfortável para eles, e seus prosélitos, parece mais querer estabelecer um culto cientificista do que realmente compreender a natureza multifacetada da mente humana. Aliás, que mente? Esqueci que eles não acreditam em mente.
Para Kuhn, (2013), a ciência não é cumulativa e linear, como alguns querem vê-la. Há um paradigma dominante, que orienta o que ele chama de Ciência Normal, até que fatos sem explicação, ou mal explicados, vão se acumulando e causando discrepâncias entre as formulações teóricas hegemônicas e a realidade empiricamente observada12.
É então que ocorrem as revoluções científicas, quando um novo paradigma, com novos pressupostos e métodos, emerge para resolver os enigmas deixados pelo antigo, e passa a orientar uma nova fase da ciência.
Tenho plena consciência de que, enquanto uma ciência pré-paradigmática, a psicologia não é, de fato, uma disciplina unitária, com um único arcabouço teórico amplamente aceito. Todo psicólogo sabe disso. Apenas os behavioristas, no entanto, fazem de conta que não sabem.
A estratégia que o behaviorismo usa para lidar com essa multiplicidade de pré-paradigmas, desde John B. Watson, passando por Skinner, e chegando à presente encarnação, é sempre a mesma: ignorar décadas de críticas ao seu externalismo reducionista, que desembocaram no que se conhece amplamente no contexto da psicologia como Revolução Cognitiva. Francamente, este é um debate do século passado.
Sei que existem tentativas de diálogo e modernização de discurso. Mas o artigo que resenho aqui, não é uma delas.
Desde o final dos anos 50 para cá, a Neurociência surgiu e se popularizou, herdando muito do jargão da ciência cognitiva estabelecida através de décadas de ciência normal registrada em artigos revisados por pares. Isso tudo, para o behaviorista supremacista, que chamarei aqui de Sauron, aproveitando que os autores escolheram um título tão literário para o seu texto.
One Worldview To Rule Them All é um chamamento à consciência, aos behavioristas incautos que se apaixonam por outros discursos, distraídos, como eu. Tal como eu me apaixonei pela possibilidade de ver cada psicologia como um “jogo de linguagem”, em termos wittgensteinianos13.
Aí vem behaca falando: “Ah, mas a neurociência só tá comprovando o que a AC já dizia”!. E vai estar parcialmente certo. Mas comprova como? E o que mais comprova? Daí em diante, não interessa mais.
Este blog nasceu da febril e superlativa necessidade de divulgar esse “algo mais” que não interessa, deixando os adeptos da “única psicologia científica” na linguagem de Mordor, que ouso usar aqui, atarantados como um Amish14que houvesse despencado da carroça na quinta avenida em NY.
Esse artigo me pegou em cheio, porque fui acusado disso enquanto behaviorista15. Este é um trecho de um e-mail que recebi de uma amiga muito querida, cujo nome não vou revelar, porque a respeito muito e simplesmente duvido que ela desejasse aparecer, neste contexto, no meu blog:
Ale, eu me alterei com o [Sauron] ontem no congresso, no (Não direi onde!). Ele tava defendendo a internação de autistas. Eu fiquei puta da vida!
Disse a ele que o pensamento dele estava na contramão do movimento da luta antimanicomial e que eu desconhecia qualquer estudo que comprovasse que a internação era melhor do que a convivência com a família.
Ele me disse que eu pensava assim pq eu não convivia com uma pessoa especial. Aí eu quase bati nele. Disse que realmente era pouco uma convivência de XX anos com meu [pessoa próxima] . Aí ele disse que eu estava sendo passional. Fácil, né? Alguém fala de falsificacionismo para este moço por favor!
Ale, ele disse que vc falava um dialeto. Que vc não era analista do compto. Eu dei extinção neste compto dele. Mas depois eu fiquei pensando que a gente precisava se fortalecer cientificamente para derrubar o argumento dessas pessoas. Precisamos estudar, publicar, porque eles fazem isso.
E não é dificil que eles sejam ouvidos por quem faz a política pública, por agências de fomento em função de terem argumentos mais concretos, entende? Ainda que os dados sejam maquiados, que as pretensões sejam outras.
Outro dia ouvi o Cid Gomes dizer que estava quase convencido de que as comunidades terapêuticas religiosas eram a melhor saída para os drogados. É óbvio! Cadê as publicações dos psicólogos dos caps AD? Entende o que eu estou dizendo? E não é blog, não é site, é qualis A, Nacional, internacional.
Pode ser que eu esteja vendo só um ângulo da coisa. Vc está envolvido nesta luta há tantos anos pode me mostrar outras variáveis.
Vamos conversar…
Todos os negritos são meus e destinam-se a:
Rir na cara do perigo
Proteger a identidade da minha amiga, que segue sendo analista do comportamento, uma das melhores que conheço, inclusive, só não vou elogiar mais para não dar trela de quem seja, e
Marcar alguns argumentos. Eu não apelidei meu desafeto de Sauron à toa. Quando algum punidor encontra consequências jurídicas, esse cara acolhe numa boa. Já eu, entrei e saí da AC sem dar choque nem em rato. E conheço muita gente que faz o mesmo até hoje.
Note a semelhança entre a forma que o Sauron abordou minha amiga para desqualificar o meu discurso, e a forma como os autores de One Worldview to Rule Them All (Zane T., et al, 2023) recomendam o retorno à ortodoxia “filosófica” da Análise do Comportamento.
E note, que, à época, eu tirei por menos, nem mesmo levamos a idéia de publicar adiante. Eu não me via capaz de fazê-lo, por causa do meu TDAH, mas precisamente pelo mesmo motivo, me lembro menos ainda quais desculpas dei à ela para adiar o que ela me propôs. Espero que ela não fique chateada com essa minha pequena molecagem aqui, publicar nossa correspondência pessoal.
Eu sempre tive medo do envolvimento acadêmico. E me encastelei, na Casa da Esperança, como um eremita, escrevendo para blogs diferentes, ao longo dos anos. Se este fato for usado para me crucificar, eu irei de cabeça erguida para a cruz. A Casa da Esperança sempre foi e sempre será o meu melhor esconderijo.
Minha resposta a ela foi
Quanto a eu falar um dialeto, é a única coisa que se aproxima da verdade. Faz tempo que mandei a ortodoxia behaca às favas, em nome da comunicabilidade, da interface com outras ciências de saúde.
E a conversa se encerrou aí. Pelo menos por e-mail. Não lembro mais se conversamos sobre isso pessoalmente depois. Isso aconteceu em Junho de 2011. É, sou velho mesmo. Mas tinha quase 20 anos de envolvimento com o tema do autismo, à época.
Thomas Kuhn acreditava que paradigmas podiam conviver, por décadas, até que uma descoberta de um tornasse o outro obsoleto. E aí os cientistas voltavam à prosaica atividade de resolver quebra-cabeças.
Foi assim que idéias como flogisto, éter, humores corporais e outras tantas, foram ressignificadas e ficaram para trás.
Enquanto o behaviorismo radical resolver problemas, ele seguirá fazendo adeptos. Ou seja: o autismo16 é a tábua de salvação da ABA, e não o contrário. Sem o autista severo17 para modificar comportamento, o discurso reducionista SD-R-SC, tríplice contingência18, já teria morrido. Movimentos religiosos fazem coisas como esse artigo, quando perdem adeptos: repare na renovação carismática.
Uma parte deste discurso supremacista vem originalmente da formulação de Skinner. Ele argumenta, no capítulo 7 de “Além da Liberdade e Dignidade” (Beyond Freedom and Dignity) que, se uma cultura não consegue incutir em seus membros a importância de práticas que garantam sua perpetuação, isso é uma falha significativa dessa cultura.
A idéia de cultura embutida neste papo do Skinner só fazia sentido antes da internet, quando as interações eram tão lentas que dava tempo planejar pombos kamikazes, ser cancelado pelos pombos, e a Análise do Comportamento perder o lugar central da física no discurso da guerra fria: já pensou se desse certo antes de Oppenheimer?
Em outras palavras, Skiner já afirmava que se as pessoas não estão preocupadas com a sobrevivência de sua cultura, isso refletiria negativamente sobre a eficácia e adaptabilidade dessa cultura em promover comportamentos que assegurem sua continuidade. É só isso que Sauron et al., estão fazendo neste artigo.
Caetano faz o mesmo nessa letra, espinafrando (e louvando um pouco) os americanos em geral. E eu estou a defender a cultura brasileira neste artigo.
Americanos são muito estatísticos Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos Olhos de brilho penetrante que vão fundo No que olham, mas não no próprio fundo.
— Caetano Veloso (1992)
Resumo Crítico do Artigo “One Worldview to Rule Them All”
O artigo de Zane et al. aborda o que os autores consideram um “estar à deriva”, por parte de analistas do comportamento, ao utilizarem intervenções não alinhadas aos princípios do behaviorismo radical. A narrativa central do artigo defende que a adesão exclusiva a essa filosofia é indispensável para práticas éticas e eficazes. Segundo os autores, práticas como integração sensorial e comunicação facilitada comprometem a integridade científica e a eficácia clínica da análise do comportamento.
Se esta visão estivesse alinhada com as últimas descobertas da neurociência, poderia estar atarefada rebatendo a ousada afirmação de Lisa Feldman Barrett19, de que
“O cérebro estímulo-resposta é um mito; a atividade cerebral é predição e correção, e nós construímos experiências emocionais fora da consciência. Essa explicação se ajusta à arquitetura e ao funcionamento do cérebro.”
Barrett, L. F. (2018), em livre tradução (O grifo é meu).
Essa postura ignora os avanços interdisciplinares na psicologia, como as abordagens integrativas mencionadas frequentemente neste blog, da Cognição 4E e do Processamento Preditivo. Tais paradigmas oferecem uma visão muito mais abrangente dos fenômenos cognitivos e comportamentais, reconhecendo a complexidade da interação entre cérebro, corpo e ambiente. Por exemplo, enquanto Zane et al. rejeitam intervenções baseadas na integração sensorial, o Processamento Preditivo destaca a importância dos sistemas sensoriais na modulação do comportamento e na construção da experiência subjetiva.
Michelle Maiese (2019), em The Mind-Body Politic, acrescenta uma dimensão essencial a esse debate ao enfatizar que as instituições sociais moldam profundamente a cognição e a agência20 humanas. Maiese argumenta que a experiência vivida e encarnada deve ser o ponto de partida para compreender a mente e as interações sociais, crítica que se alinha à abordagem de Barrett, que desafia o reducionismo das explicações simplistas. Além disso, a crítica de Maiese ao “ideal comportamental” ecoa a rejeição de Seth e Barrett à ideia de comportamentos normativos universais, destacando a importância das diferenças individuais e da interocepção como componente essencial da consciência21.
A Necessidade de Uma Abordagem Crítica e Integrativa
Embora o behaviorismo radical seja fulcral para a ciência do comportamento, confinar-se à sua formulação estrita claramente limitou a participação dos analistas do comportamento no debate que culminou na Revolução Cognitiva em meados do século passado.
A ciência contemporânea exige um diálogo interdisciplinar e abordagens que considerem simultaneamente as dimensões individual e contextual do comportamento. Como defende Michelle Maiese, a compreensão da cognição humana requer teorias que integrem múltiplos níveis de análise, desde os mecanismos biológicos até as interações socioculturais, incluindo os discursos que conferem poder a certos grupos, em detrimento de outros. Defender “uma visão de mundo para a todas governar” é um claro passo na direção oposta ao diálogo: Remete mais a uma provocação supremacista.
Pureza Comportamental e Culto Científico
Os argumentos de Zane et al. ecoam uma postura de “pureza comportamental” que, ironicamente, lembra práticas dogmáticas de líderes de culto. Assim como algumas comunidades religiosas privilegiam uma interpretação literal e única das escrituras, estes behavioristas radicais defendem a exclusividade de sua visão epistemológica como a única aceitável para compreender e intervir no comportamento humano.
A insistência na “conversão” dos analistas do comportamento a uma única “verdade” metodológica não passa de um proselitismo científico.
Enquanto líderes de culto tentam modelar comportamentos para aderir a ideais religiosos, estes behavioristas radicais também podem impor padrões normativos de comportamento, desconsiderando a subjetividade por definição.
Essa abordagem pode ser comparada ao equivalente funcional do “amor condicional” das seitas, onde a aceitação do discurso do analista do comportamento depende de uma adesão completa às premissas do behaviorismo radical, em detrimento de uma visão integrativa que considerasse outros ângulos de visão dos mesmos problemas.
Limitações Éticas e Epistemológicas do Supremacismo Behaviorista
Ao priorizar exclusivamente variáveis observáveis e mensuráveis, Zane et al. ignoram uma premissa central da ciência contemporânea: a complexidade inerente dos sistemas humanos. Como destacado por Maiese, qualquer teoria que desconsidere a influência de instituições sociais e da experiência vivida negligencia a totalidade do que significa ser humano.
Além disso, a visão de Anil Seth em Being You, sobre a interocepção e a construção ativa da consciência desafia diretamente a ideia de que o comportamento pode ser explicado apenas por estímulos externos, trazendo evidências muito compelidoras para os seus argumentos.
A abordagem reducionista destes behavioristas radicais apresenta também riscos éticos. Quando a análise do comportamento é usada como ferramenta universal para moldar pessoas, muitas vezes sob pressão financeira e social22, há um perigo real de que intervenções sejam aplicadas sem considerar nuances éticas e subjetivas da experiência humana. Como expliquei neste blog ano passado, o hype da ABA deveria ser combatido por Analistas do Comportamento sérios: Eles promovem o vendedor de banana23.
Para uma realidade complexa, uma psicologia complexa.
Apesar de suas limitações, o behaviorismo radical possui méritos que não podem ser ignorados. Aprendi a fazer anamneses mais objetivas e a formular diretrizes claras em estudos de caso. Essas qualidades oferecem ferramentas úteis na prática clínica. Não vejo motivo para ignorar perspectivas mais abrangentes.
O artigo One Worldview to Rule Them All vai numa direção claramente supremacista, expressa já em seu título, que remete à figura de Sauron, o senhor do Um Anel em O Senhor dos Anéis.
Assim como Sauron, que busca subjugar todas as vontades à sua, os autores de One Worldview to Rule Them All posicionam o behaviorismo radical como o único paradigma cientificamente legítimo, desconsiderando a pluralidade de abordagens que enriquece a psicologia contemporânea, e que, com um pequeno ajuste de perspectiva poderiam começar a enriquecer o nosso entendimento, em vez de nos fazer brigar.
Essa incomoda e atiça o meu Frodo interior, alguém disposto a sacrificar o próprio dedo para derrotar Sauron. O risco, dada a proliferação viral dos “Saurons” contemporâneos, presentes em cultos cientificistas internet afora, é acabar sem dedos, tamanha a proliferação destas narrativas totalizantes.
É essencial, portanto, confrontar essas tendências com um entendimento correto de inclusão, diversidade e diálogo entre os nossos (pré) paradigmas, rumo a uma psicologia integral, que honre a complexidade de seu campo, para que a navalha de Occam deixe de ser a ferramenta de Procusto24, para ser uma ferramenta de parcimônia científica.
Criticar o behaviorismo radical não me transforma em negacionista científico. Ao contrário, quem nega a realidade é quem pensa que pode, com ferramentas simples, resolver problemas complexos e cheios de meandros como são as dificuldade das pessoas de se ajustarem umas às outras em ambientes de sobrecarga estimular e informacional como aqueles em que vivemos imersos, hoje em dia.
Referências
Barrett, L. F. (2018). How emotions are made: The secret life of the brain (First Mariner Books edition). Mariner Books.
Kreitzer, M. R. (2024). When a theological shift changed a nation: A Kuyperian analysis of church and society 1990, and a way forward for South Africa. Peter Lang.
Kuhn, T. S. (2013). A Estrutura das Revoluções Científicas (B. V. Boeira & N. Boeira, Trads.; 12o ed). Editora Perspectiva.
Hassan, S. (2018). Combating Cult Mind Control (30o ed). Freedom of Mind Press.
Maiese, M. (with Hanna, R.). (2019). The Mind-Body Politic. Springer International Publishing AG.
Skinner, B. F. (1974). Para além da liberdade e da dignidade (I. C. S. S. Cunha, Trad.). Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1971)
Skinner, B. F. (2011). Sobre o behaviorismo (10ª ed., M. S. S. de Carvalho, Trad.). Cultrix. (Trabalho original publicado em 1974)
Veloso, C. (1992). Americanos [Canção]. No álbum Circuladô Vivo. Philips.
Veloso, C. (1968). A voz do morto [Canção]. No álbum Caetano Veloso (EP), interpretado por Caetano Veloso e Os Mutantes. Gravadora Philips.
Veloso, C. (1984). Língua [Canção]. No álbum Velô. Philips.
Veríssimo, É. (1949). Um certo capitão Rodrigo. No livro O tempo e o vento: O continente (Vol. 1). Editora Globo.
Zane, T., Weiss, M. J., Cihon, J. H., & Leaf, R. (2023). One Worldview to Rule Them All. Lnternational Electronic Journal of Elementary Education, 3. https://doi.org/10.26822/iejee.2023.290
Notas de Rodapé
Weltanschauung é um termo alemão que significa “visão de mundo” ou “cosmovisão”. Ele descreve o conjunto de crenças, valores, e percepções que moldam como um indivíduo ou uma sociedade entende e interage com o mundo ao seu redor, influenciando decisões e ações. ↩︎
Tauwind é um termo alemão que significa “vento de degelo”. Refere-se a um vento quente que causa o derretimento de neve e gelo, muitas vezes simbolizando transição ou mudança. Em contextos literários ou filosóficos, pode ser usado metaforicamente para representar o fim de um período de estabilidade, a chegada de transformações ou mesmo a decadência de algo previamente valorizado. ↩︎
Ewige Wiederkunft des Gleichen é uma expressão alemã que significa “eterno retorno do mesmo”. Ela foi usada por Nietzsche para descrever sua ideia de que todos os eventos da existência retornam repetidamente em ciclos infinitos, de forma idêntica. O conceito desafia a percepção linear do tempo e serve como um teste existencial, sugerindo que a vida deve ser vivida como se cada momento fosse eterno. ↩︎
Oxumaré dança em seu mar de lama é uma metáfora presente na canção Nação (Bosco, Blanc & Emílio, 1982), que evoca a simbologia de Oxumaré, orixá andrógino da renovação e da continuidade no candomblé. A expressão sugere movimento, transformação e resiliência mesmo em contextos difíceis, como um “mar de lama”, aludindo a lutas históricas e sociais (e sim, eu tenho que explicar tudo, senão alguém entende diferente demais e vem desqualificar o meu discurso.) ↩︎
No contexto da cognição 4E, gosto de traduzir embebbed, embutido, por enraizado, porque acho que incorpora melhor o espírito do original. A tradução literal me faz pensar em móveis embutidos. O enraizado me lembra este quadro que Luiz Karimai fez de Patativa do Assaré, o genial poeta cearense, assim representando uma antropofagização do termo em meu repertório. ↩︎
Enativo: Refere-se ao paradigma da cognição enativa, uma abordagem da ciência cognitiva que enfatiza que a cognição emerge da interação dinâmica entre um organismo e seu ambiente. Enfatiza processos “bottom-up”, como percepção e ação, argumentando que o conhecimento é construído através da experiência sensorial e da ação corporal no mundo. Essa perspectiva está associada a conceitos como autopoiese e acoplamento estrutural, propostos por Varela, Thompson e Rosch. ↩︎
Esta referência, se você precisar dessa nota para lembrar, sinto muito, é difícil te reconhecer brasileiro não é só falar latim em pó. ↩︎
A Frase ficou fortemente associada ao personagem de Veríssimo, em minha mente. Na lembrança, vem aquela imagem do personagem incorporado pelo saudoso ator Tarcísio Meira, na memorável minissérie da Rede Globo sobre o livro. Mas a expressão é ora atribuída ao médico argentino Ernesto Che Ghevara, ora a um outro revolucionário mexicano, segundo este website português remoto. ↩︎
E muito menos falsiane. Me acusem de qualquer outa coisa! ↩︎
Nenhuma novidade aqui. Todo analista do comportamento é nerd, e eu, pessoalmente, só deixei de ser analista do comportamento. ↩︎
Onde que eu já tinha visto esta logica antes? Ah! No Processamento Preditivo! Assim como o cérebro ajusta modelos internos para minimizar erros preditivos, a ciência reorganiza seus paradigmas para lidar com anomalias acumuladas. O erro preditivo na ciência normal não seria equivalente às discrepâncias no paradigma dominante? E a substituição de um paradigma, uma reconfiguração global do modelo gerativo coletivo? Parece que a ciência e o PP têm mais em comum do que eu jamais imaginei. ↩︎
Ainda que eu sempre tenha usado, para o mesmo efeito, o conceito de comunidade verbal, como pragmaticamente fazia Skinner (frequentemente uso as duas expressões como equivalentes funcionais, discriminando apenas o contexto em que se usa uma delas para melhor ser entendido). ↩︎
Os Amish são um grupo religioso cristão anabatista que surgiu no final do século XVII na Suíça e no sul da Alemanha, como um desdobramento dos menonitas. Conhecidos por seu estilo de vida simples, os Amish evitam muitas formas de tecnologia moderna, buscando viver de acordo com princípios bíblicos e preservando tradições comunitárias. Eles valorizam o trabalho agrícola, a família e a separação do mundo secular, seguindo um código de conduta chamado Ordnung. ↩︎
Definido de forma restrita, porque se falar, se pensar, se sonhar de modo não encoberto, pode aprender a cantar e escrever, e aí o cientista fica confuso. ↩︎
Essa família é muito importante. Eu tinha um velho amigo poeta, que morreu na pandemia, chamado Sérgio Augusto Severo, em homenagem a seu avô, que deu nome ao aeroporto de Natal, onde nasceu minha mãe (nota oriunda da minha aleatoriedade mental). ↩︎
Tríplice contingência é um conceito fundamental no behaviorismo radical de B.F. Skinner. Refere-se à relação funcional entre três elementos básicos do comportamento: estímulo antecedente (o que ocorre antes do comportamento), resposta comportamental (o comportamento propriamente dito) e consequência (o que ocorre após o comportamento). Essa interação explica como o comportamento é moldado, mantido ou enfraquecido pelo ambiente, sendo central para a análise do comportamento e intervenções baseadas em reforçamento e punição. ↩︎
Que foi precisamente a frase que me converteu ao cognitivismo definitivamente, em 2017, quando a escutei pela primeira vez no livro de Lisa Feldman Barrett, How Emotions Are Made, sobre a teoria das emoções construídas. Suas descobertas transformaram em poeira a credibilidade científica de pesquisadores como Paul Ekman, usando tão somente a curiosidade (e equipamento de imagem cerebral, e outras tecnologias de ponta, claro), para descobrir que não, emoções não têm impressão digital distinguível. ↩︎
O termo agênciaé preferido à expressão livre-arbítriona cognição enativa porque enfatiza a capacidade de agir de maneira situada e contextualmente sensível, sem recorrer a noções metafísicas de autonomia absoluta. A cognição enativa vê o agente como parte de um sistema dinâmico, acoplado ao ambiente, onde ações emergem da interação contínua entre corpo, mente e mundo. O conceito de livre-arbítrio, ao contrário, carrega implicações filosóficas que sugerem uma liberdade incondicionada, que pode ignorar as restrições estruturais e situacionais fundamentais reconhecidas pela perspectiva enativa. Skinner diz algo parecido em Beyond Freedom and Dignity. Ele tem muitos méritos como pensador, não tenho qualquer dúvida disso. ↩︎
Consciência: Um conceito “profano” no Behaviorismo Radical. ↩︎
Vários colegas de abordagens diferentes estão me contando que estão fazendo cursos de ABA para ficar no mercado, ou desaparecer, porque certos profissionais recomendam ABA como a única, a melhor, e quem não deseja isso para seu filho? sendo que isso não é verdade. ↩︎
Procusto: Na mitologia grega, Procusto era um bandido que ajustava viajantes ao tamanho de sua cama, esticando-os ou cortando partes de seus corpos para que coubessem exatamente. A metáfora de Procusto é usada para criticar práticas que forçam indivíduos, ideias ou fenômenos a se encaixarem em moldes rígidos e arbitrários, ignorando sua complexidade ou diversidade. Em ciência, pode ilustrar o perigo de adaptar dados ou teorias para se conformarem a paradigmas preexistentes, sacrificando a integridade e a verdade. ↩︎
6 respostas para “Furando o olho de Sauron: Uma resenha crítica ao artigo “One Worldview to Rule Them All””.
Luis Reis
Eu fico transtornado com o artigo citado, um “manifesto à pureza” que poderia ter saído de algum esquete estilo Choque de Cultura científico, mas tudo indica que eles estão falando sério. Minha experiência com a Análise do Comportamento indica que ela pode ser extremamente valiosa quando combinada com outras formas de raciocínio clínico.
Exemplo: falar de reforço intermitente usando o experimento com ratos e o complexo esquema para dispensar alimentos parece algo sem sentido a alguém que não é da área. Mas utilizar esse conceito para explicar comportamentos como compulsão em jogos ou relacionamentos doentios é fantástico! Conceito simples, conciso e que faz brilhar os olhos de qualquer um que ouça a explicação. Mas essas aplicações acabam fatalmente perdendo em precisão, comparando com o exemplo experimental, e isso é um pecado grave para a ortodoxia behaviorista.
Outro exemplo de como a Análise do Comportamento só tem a ganhar com as diversidade está nas terapias comportamentais de terceira geração: avançadas, profundas, éticas, só foram possíveis de formulação pela absorção de conceitos “estrangeiros” ao behaviorismo, e são belos exemplos de psicoterapia contemporânea.
Em suma, no meu gosto pessoal, o behaviorismo faz todos os esforços possíveis para transformar um tema delicioso, como o comportamento humano, em algo sem sabor, neutro, excessivamente higienizado. E quando muitas pessoas resolvem dar uma temperada nisso, vem esses autores para tentar estragar a festa.
É disso que fico sempre falando, desde que eu era behaca, e alguns, como a saudosa dra. Maggie Windholtz ficavam meio desconfiados, como se eu estivesse cometendo um pecado. Esse purismo é que considero empobrecedor. Skinner querer fazer isso é compreensível, ele estava estabelecendo as coisas. Mas hoje, nosso discurso precisa falar com a filosofia, com a antropologia, com a bioética. Precisamos de um discurso com interfaces possíveis com outros discursos. Nossa sobrevivência como espécie pode estar dependendo dessa abertura.
Aí vem essa tendência bairrista, como se estivéssemos no começo do século XX, antes da “Grande Guerra”, encastelando-nos cada um na sua família semântica… Que desperdício de material humano!
A propósito, Luis, publicizando o convite que lhe fiz ontem (e que você me respondeu fazendo outro), precisamos fazer mais coisas juntos. Creio em que podemos tornar a comunicação científica do nosso campo mais neurodiversa e disruptiva, criando pontes entre os nossos hiperfocos, e derrubando o isolacionismo dos inconformados com essa distopia medievalista que estamos vivendo.
Não somos muitos, mas não somos fracos, e sabemos nos comunicar, à revelia das expectativas.
Bora fazer podcast! Existem cérebros que processam bem mais do que barulho de bicicleta.
Esse comentário sobre agir de forma diferente na origem de um movimento e depois que este é estabelecido me lembrou um livro do Leonardo Boff, onde ele explora essa e outras dicotomias na natureza e instituições culturais, políticas e religiosas. Tentando fazer um resumo bem grosseiro, há uma tendência a destruir a ordem, sonhar com vôos mais altos e seduzir vários seres para participar e fortalecer esse projeto; mas uma vez que isso é estabelecido, o movimento passa a ser contrário, de manutenção da ordem, reforço das tradições, punição dos dissidentes, etc. E puxando mais uma referência religiosa, “A Alma Imoral” de Nilton Bonder, podemos dizer que a traição aos dogmas estabelecidos não só é tolerada em alguns casos como pode ser essencial para a sobrevivência. Ao que me parece, a ortodoxia comportamental está num dilema existencial. E alguns preferem tocar violino no navio afundando.
Quanto à sua outra ideia, estou totalmente de acordo! Vamos nos reunir algum dia para fazer um Toró de Parpite (“brainstorm”)
[…] bem como o conhecimento empírico das famílias, descrevendo a prática clínica a partir de um modelo de autoridade inquestionável dos profissionais, deixando implícita uma relação de poder, e colocando-se em um mercado centrado no lucro, não […]
Psicólogo Clínico especializado em autistas adultos, Supervisor Clínico Institucional da Casa da Esperança com mais de 30 anos de experiência com pessoas autistas de todos os nós do espectro.
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