O Culto Cientificista Neoliberal Disfarçado de Ciência no Mercado do Autismo

Este texto não tem como objetivo vender terapias ou promover minha abordagem como superior. A proposta aqui é discutir criticamente o cientificismo prescritivo1 que ignora a colaboração e a subjetividade da pessoa em terapia, bem como o conhecimento empírico das famílias, descrevendo a prática clínica a partir de um modelo de autoridade inquestionável dos profissionais, deixando implícita uma relação de poder, e colocando-se em um mercado centrado no lucro, não na melhora efetiva da qualidade de vida das pessoas.

Baseio minhas reflexões em Maiese e Hanna (2019) sobre o impacto das instituições sociais sobre a mente e a vida humana em sociedades neoliberais, e trago minha indignação com marketeiros disfarçados de cientistas nas redes sociais e nos consultórios, que vendem soluções “técnicas” como inquestionáveis. Este não é o tipo que vende pseudociência, igualmente perigoso. É o tipo que vende ciência supremacista de caráter duvidoso.

Representa um cachorro com um chapéu estilo "Tio Sam" (vermelho, branco e azul com estrelas), vestindo uma gravata borboleta com o mesmo padrão. A expressão do cachorro é séria, e a imagem sugere uma crítica à idolatria ou influência estrangeira (particularmente americana).

Para explorar o tema, criei um diálogo imaginário entre um influencer colonizado, que tenta vender ciência como “decisões técnicas inquestionáveis” e torce o nariz para tudo o que é feito no Brasil, como uma vedete vira-latas do tio Sam.

O outro debatedor é um terapeuta baseado em evidências, consciente dos elementos contextuais, culturais e políticos da área da saúde mental.

A Ciência Fechada em Si Mesma

Tecnocrata Neoliberal:
A ciência é técnica e objetiva, não é feita para ser empática. A decisão sobre horas de terapia é baseada em dados, não em empatia ou opiniões familiares.

Terapeuta:
Dizer que dados científicos são objetivos por si só é ignorar que eles precisam ser interpretados. Estudos como os de Kupferstein (2018) mostram como intervenções intensivas podem gerar traumas em autistas, enquanto Wilkenfeld e McCarthy (2020) destacam violações éticas recorrentes na aplicação de certas abordagens baseadas em evidências. Nenhum dado é neutro quando está ligado a interesses financeiros que guiam a recomendação dessas práticas.

Condescendência

Tecnocrata Neoliberal:
Adaptações baseadas no que a família quer são desonestas e comprometem a ciência. Eu até entendo que queira o que quer, dado que no Brasil tudo é feito nas coxas.

Terapeuta :
Honestidade não é desprezar o contexto humano, ou o nosso próprio contexto cultural. Estudos como o de McGill e Robinson (2021) evidenciam os danos de intervenções coercitivas que ignoram necessidades subjetivas. A empatia não compromete a ciência; ao contrário, aumenta sua eficácia quando se entrelaça com a autonomia do paciente e da família em aliança terapêutica.

Esta condescendência só denota a superioridade que o tecnocrata se arroga, restando ao resto da humanidade cumprir sua prescrição2.

O único modo de atuar em um contexto desconsiderando a cultura de uma pessoa em favor do seu próprio tecnicismo alienígena e alienante é se vender como “padrão-ouro”. No ambiente do debate, as pretensões ficam mais claras, e este discurso é mais facilmente desmascarado como Marketing.

Empatia é uma categoria estudada pela ciência. Falta de empatia é inclusive um componente importante de vários transtornos.

O Lucro Disfarçado de Ciência

Tecnocrata Neoliberal:
Minha recomendação é padrão-ouro para autismo, reconhecida por décadas de pesquisas. Recomendar outra coisa é desonesto.

Terapeuta:
Este “padrão-ouro” muitas vezes reflete interesses comerciais. Ritchie (2021) denuncia como vieses e negligência comprometem a integridade científica. Além disso, certas práticas “baseadas em evidências” ignoram a complexidade da mente, como apontado por Shkedy et al. (2021), e reduzindo o cuidado a um produto que nem sempre entrega o que promete.

Pessoas que cuidam devem ser remuneradas, e bem remuneradas, inclusive. Mas se quem pesquisa, lucra com a validação das suas hipóteses clínicas, quem está sendo desonesto?

Concluindo

Mostra um cigarro enrolado (tipo baseado) com a frase "Baseado em Evidências" escrita em letras vermelhas e marcantes. É uma crítica visual irônica sobre o uso do termo "baseado em evidências", sugerindo que ele pode ser usado de forma indiscriminada ou distorcida.

A prática clínica deve integrar o rigor científico com o respeito às pessoas. Como Maiese e Hanna (2019) argumentam, o mercado deforma valores humanos fundamentais, moldando as mentes e os corpos ao seu propósito, através de transformar tudo, inclusive relações de ajuda, em mercadoria.

Ciência não deve ser autoritária: É, por sua própria natureza, social, dialógica e colaborativa (Ritchie, 2021). Cultos são autoritários e apresentam os seus próprios interesses como inevitáveis (Hassan, 2015). E Líderes de culto redpill fazem muito sucesso disfarçados de “baseados em evidência”. Você conhece alguém assim, nas redes?


Referências

  1. Gupta, M., Khurana, P., & Gupta, N. (2024). A Critical Review of Applied Behavior Analysis (ABA): Trends & Gaps. Preprints.org. Disponível em: https://www.preprints.org/manuscript/202410.0413/v1.
  2. Kupferstein, H. (2018). Evidence of increased PTSD symptoms in autistics exposed to applied behavior analysis. Advances in Autism. Disponível em: https://doi.org/10.1108/AIA-02-2018-0001.
  3. Leaf, J. B., et al. (2022). Concerns About ABA-Based Intervention: An Evaluation and Recommendations. Journal of Autism and Developmental Disorders. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10803-022-05231-5.
  4. Hassan, S. (2015). Combating cult mind control: The #1 guide to protection, rescue, and recovery from destructive cults (25th Anniversary ed.). Newton, MA: Freedom of Mind Press.
  5. McGill, O., & Robinson, A. (2021). Recalling hidden harms: autistic experiences of childhood ABA. Advances in Autism. Disponível em: https://doi.org/10.1108/AIA-04-2020-0025.
  6. Shkedy, G., et al. (2021). Long-term ABA Therapy Is Abusive. Advances in Neurodevelopmental Disorders. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s41252-021-00201-1.
  7. Wilkenfeld, D. A., & McCarthy, A. M. (2020). Ethical Concerns with Applied Behavior Analysis for Autism Spectrum Disorder. Kennedy Institute of Ethics Journal. Disponível em: https://doi.org/10.1353/ken.2020.0000.
  8. Ritchie, S. (2021). Science Fictions: How Fraud, Bias, Negligence, and Hype Undermine the Search for Truth. Disponível em: https://doi.org/10.1234/sf2021.
  9. Maiese, M., & Hanna, R. (2019). The Mind-Body Politic. Disponível em: https://doi.org/10.1007/978-3-030-19546-5.

  1. Cientificismo prescritivo aqui refere-se a uma abordagem que aplica métodos e conceitos científicos de maneira rígida e inflexível, tratando-os como a única fonte válida de conhecimento e prescrição de práticas. Essa visão desconsidera o contexto humano, social e cultural, ignorando as subjetividades envolvidas e tratando decisões científicas como verdades absolutas e inquestionáveis, muitas vezes alheias às necessidades subjetivas. ↩︎
  2. Aqui no Ceará, corno é o cabra que faz isso, e não o que é traído. ↩︎

6 respostas para “O Culto Cientificista Neoliberal Disfarçado de Ciência no Mercado do Autismo”.

  1. Avatar de Luis Reis
    Luis Reis

    Esse texto toca em algo fundamental, mas pouco discutido a não ser em quem tem contato com aulas de filosofia e afins: o que é verdade? Atualmente, ainda se pode dizer que a ciência detém esse prestígio em seu discurso, mas para que. não conhece os motivos disso, há o risco de ser apenas mais uma palavra de autoridade. Assim, quando é comparada com outras, muitas vezes a mensagem que se sobressai é aquela que tem o maior poder de convencimento.

    Diante de tecnologias de comunicação vez mais avançadas a serviço de fundamentalismos religiosos, os “paladinos da ciência” resolvem instrumentalizar essa situação, dizendo que toda crítica é na verdade uma prática anti-científica. Há alguns anos eu vi uma lista de pseudociências circulando, e não pude deixar de notar a semelhança com o “Index Librorum Prohibitorum” da Santa Inquisição. Isso já diz muito…

    Em 2005, há 20 anos, foi lançado o filme “Obrigado por Fumar”, que já dizia como a opinião pública podia ser manipulada para fins particulares. Então, é impressionante como alguns ainda fazem a cara do Pikachu chocado quando percebem qualquer questionamento à ordem vigente.

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    1. Avatar de Alexandre Costa

      Do mesmo modo que o fundamentalismo deseja instrumentalizar a ciência, como exemplificado pela declaração de Damares Alves, durante o Governo Bolsonaro, lamentando a igreja ter deixado “a ciência para os cientistas”, eu vejo um movimento cientificista pós-moderno que poderia, se isso não lhes arruinasse a narrativa, dizer que lamenta ter deixado “a igreja para os religiosos”.

      Nem todo mundo é cientista, e nem precisa. Mas como não somos todos cientistas, temos que confiar na autoridade científica. E a materialidade da autoridade científica é o sacrossanto sistema de revisão por pares. O item 8 da minha bibliografia é uma defesa da ciência contra a corrupção deste sistema, descrita no livro, e amplamente facilitada pelos instrumentos que temos hoje, inclusive IAs generativas.

      Em tempo, O deus que adoram religiosos, cientificistas e pseudocientistas, é o mesmo: Mamun, o kapetal, cobre, mufunfa, metal. Dinheiro. Um meio que virou fim em si mesmo.

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  2. Avatar de Cláudia Rodrigues
    Cláudia Rodrigues

    Conheço alguém assim nas redes, mas não tenho grana pra advogado.

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  3. Avatar de literalmentelivre

    O que mais perturba, é que para os buscam ajuda, seja ela medicamentoso, terapêutico ou para exames, fica difícil discernir quem está verdadeiramente apto para tal serviços, quem está sendo ético e verdadeiro ou quem está usando de má fé.

    Nem todos tem um acompanhante ou um responsável que o ajude a discernir, pois estão fazendo este caminho árduo da investigação, entre outros processos para um desenvolvimento afim de ter uma qualidade de vida, uma vida social minimamente digna e um meio de sobrevivência com o mínimo de danos possível.

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Sou Alexandre Costa

A imagem mostra um homem com uma longa barba grisalha e cabelo curto, usando óculos e uma camisa preta com o logotipo "Calvin Klein Jeans" estampado no peito. Ele está em um ambiente externo, com uma árvore grande e galhos densos ao fundo. A iluminação natural destaca o rosto e os detalhes da barba, criando uma atmosfera tranquila e natural. A expressão facial é neutra, transmitindo uma aparência calma e acolhedora. No canto inferior direito, há uma marcação de data e hora: "17 de jul. de 2024, 17:26."

Psicólogo Clínico especializado em autistas adultos, Supervisor Clínico Institucional da Casa da Esperança com mais de 30 anos de experiência com pessoas autistas de todos os nós do espectro.