Viés não é erro cognitivo, é apenas percepção.

No contexto da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a palavra viés é geralmente considerada um erro cognitivo, uma crença desadaptativa, de alguma maneira algo que se desvia da norma.

Dado que a diferença entre TCC e ABA reside apenas na consideração da cognição como fator causal na teia contingencial, esse pragmatismo realista tem um papel central: a causa do seu sofrimento, encurtando a cadeia de pensamento, é que você é enviesado, não enxerga as coisas como são, está em descompasso com a realidade . Isso nunca me soou bem. Neste artigo, eu vou te contar como descobri por quê.

Realidade é algo superestimado.

Nossos sentidos proporcionam a única experiência em primeira pessoa a respeito do tema, e a ciência demonstrou, vezes sem conta, que há um universo, invisível desta perspectiva, que tem também um grande poder causal, tal como está amplamente demonstrado, por diversos autores, desde os anos 50, que este é também o caso do comportamento encoberto.

Quando sou eu, deste lado do laboratório ou do cenário experimental, ou do processo terapêutico, quem define o que é realidade, quando esse dado é pressuposto no meu sistema de crenças (como o é explicitamente em diversos autores populares de TCC), então deixo de fora um importante elemento da formulação de casos colaborativa, um elemento essencial deste campo de atuação.

A maioria dos autores da TCC com quem dialogo em uma base diária (chama-se leitura), têm honestidade intelectual suficiente para admitir que a TCC é baseada no senso comum. Disso deriva que a solução proposta é identificar padrões de pensamento incongruentes com esse senso comum e, através de diversas técnicas, levar as pessoas a questioná-los e alcançar um nível maior de racionalidade, ou objetividade, diminuindo assim o sofrimento que as levou a buscar ajuda.

Essa abordagem é eficaz de muitas maneiras. Ao diminuir a incongruência entre expectativa e realidade, muito do sofrimento é aliviado. No entanto, talvez administrar individualmente um sofrimento que tem raízes sistêmicas e coletivas, corra o risco de retroalimentar narrativas dominantes que determinam esse sofrimento.

Contra uma tal situação, talvez fosse adaptativo mergulhar nesse sofrimento, não para afogar-se nele, mas para desenvolver habilidades de enfrentamento de suas causas.

Quem define o que é realidade?

Aaron Beck e Judith Beck, em várias ocasiões, definiram os vieses como distorções sistemáticas que levam as pessoas a interpretar erroneamente a realidade. Robert Leahy, os define como Falácias Lógicas, cuja correção é essencial para melhorar o bem-estar psicológico.

A premissa com a qual me bato aqui neste artigo é essa de uma realidade objetiva neutra. Eu considero essa abstração potencialmente um ponto cego para a veiculação de ideologias individualistas que estão no cerne das iniciativas científicas contemporâneas em saúde mental. Quase tudo em nossa espécie é produzido coletivamente. Do nascimento (sempre prematuro) até a possibilidade relativa de agência e tomada de decisão na vida adulta, praticamente tudo em nossa vida é construído coletivamente. Por que motivo o sofrimento psicológico é responsabilidade exclusivamente individual?

Skinner também estava certo

Neste sentido, a crítica de Skinner ao “pensamento circular” do cognitivismo é perfeitamente aplicável: sofre porque tem depressão; é deprimido porque sofre desse jeito específico. Por que tem dificuldades de comunicação? porque é autista. Como sabemos que é autista? porque tem dificuldades de comunicação. Skinner teve vários pensamentos brilhantes como este.

O que chamarei aqui de realismo cognitivo, tem, no que não diz, algumas armadilhas que transformam psicólogos em aplicadores quase passivos de técnicas e protocolos. Sempre me lembro da professora (cujo nome gentil e felizmente esqueci) que afirmou em um curso de TCC que fiz, que uma paciente lhe agradeceu por lhe haver salvo a vida (pois a terapia aliviou sua ideação suicida), e ela lhe respondeu que apenas havia aplicado um protocolo. Disse isso para enfatizar que não há mais nada de “arte” na psicoterapia. Que o positivismo lógico das terapias “fast food” havia banido para sempre o misticismo ocultista do talento terapêutico, e substituindo-o por receitas de pratos, uma para cada transtorno do DSM.

Ainda que se possa estender a idéia aos chefs que criam receitas, em contraposição aos cozinheiros medíocres que apenas seguem-nas, essa metáfora deixa de fora a ideia de que o paciente não é um prato. É um sistema inteiro, de certo ponto de vista, e uma parte de um sistema maior, de outro ponto de vista.

Essa perspectiva realista da TCC pode ser instrumentalizada como ferramenta ideológica, em nosso contexto ubiquamente neoliberal. Ao definir os vieses cognitivos como erros individuais, a TCC reforça a narrativa de que o sofrimento mental é responsabilidade do próprio indivíduo, e não resultado de um contexto social estruturalmente opressor. Essa culpabilização individual legitima políticas de desmonte do estado de bem-estar social, promovendo a lógica da resiliência e da autossuficiência.

Por exemplo, ao tratar a depressão como uma questão de pensamentos negativos mal ajustados, a TCC desvia a atenção das causas sistêmicas, como desigualdade econômica, precarização do trabalho e falta de acesso a serviços básicos. Isso reforça a ideologia neoliberal, que coloca o ônus do sucesso ou fracasso exclusivamente sobre os ombros dos indivíduos.

Dançando conforme a música

E isso não significa uma abordagem que negligenciasse a diátese para supervalorizar o estresse. Entendo cognição como a dança contínua entre as mentes e as coisas, incluindo aí pensamento, emoção e sensação, para construir sentido compartilhado. Uma dança de papéis e contrapapéis, no sentido mais genérico, e entre indivíduos únicos, de um ponto de visa mais íntimo e específico.

Uma parte indissociável disso é o corpo que dança. E o cérebro como parte desse corpo. E, como se não fosse importante, que música toca, de qual banda. Nessa metáfora da dança, as músicas são narrativas-mestras, ou dominantes, cujos temas e frases melódicas se vão sucedendo do macro ao micro. E valorizando as pessoas conforme as músicas que conseguem dançar. Agora troque músicas por narrativas, nessa metáfora, para nos dar mais tempo do que uma dança nos concederia.

As histórias entretecidas que contamos sobre nós, que contém nossas crenças e expectativas sobre a realidade, podem ser vistas como esforços para prever o futuro, na esperança pragmática de que repetisse o passado, com a coragem de enfrentar o desconhecido, remodelando nossas crenças continuamente. É disso que se trata a vida, no sentido poético.

No sentido físico, somos estruturas dissipativas (Prigogine) autopoiéticas (Maturana e Varela), ou seja, fazemo-nos a nós mesmos continuamente, tanto do ponto de vista físico, quanto biológico, ou psicológico. Neste último sentido, somos construtores de significado coletivo. Mas a nossa intimidade com a realidade é mediada pelos sentidos.

Quem conta as histórias mais importantes?

Narrativas dominantes, como a do american dream, nos EUA, ou no Brasil, a do Homem Cordial, ou a da Democracia Racial invisibilizam muito sofrimento que pode ser individualizado, quando poderia ser compreendido como resultado de que o nosso corpo não consegue dançar essa música/narrativa opressiva que o sistema neoliberal toca ubiquamente pelo mundo inteiro, em quase todas as línguas.

Essa lógica silencia sobre temas centrais. Uma forma especificamente brasileira de preconceito, por exemplo, é diluído no humor. Através do humor, naturalizamos o preconceito racial, de classe e de gênero, além do capacitismo.

É urgente compreender que toda cognição é enviesada. É equivalente a se dar conta de que todo discurso político é ideológico. A própria ideia de evidência pode (embora não necessariamente o seja) servir a esse propósito alienante e destrutivo.

Embasamento Neurocientífico

O artigo que resenhei aqui, sobre a “insustentável” lentidão do ser, conclui que o cérebro filtra 99,999999% da entrada sensorial. Ele recebe uma quantidade imensa de informações sensoriais a cada segundo, mas apenas uma fração mínima dessas informações chega à consciência ou influencia diretamente nossas ações.

Esse filtro extremo se deve a uma combinação de processos neurofisiológicos e computacionais que garantem que o cérebro não seja sobrecarregado por estímulos irrelevantes.
Cada sentido capta um volume massivo de informações:

  • Visão: O nervo óptico transmite cerca de 1,6 gigabits por segundo ao cérebro.
  • Audição: O ouvido interno pode processar sons em uma faixa dinâmica muito ampla, chegando a 100.000 bits/s.
  • Tato, olfato e propriocepção: Também carregam grandes quantidades de dados sobre o ambiente e o corpo.

No entanto, quando observamos o comportamento humano, percebemos que a quantidade de informação que realmente influencia nossas ações é de apenas 10 bits/s. Essa diferença representa um fator de filtragem de 99,999999%—ou seja, menos de uma em um milhão de unidades de informação captada chega à cognição ou ao controle motor.

O cérebro filtra informações em diferentes níveis da hierarquia neural, garantindo que apenas os estímulos mais relevantes sejam processados conscientemente. Esse mecanismo é essencial para evitar sobrecarga cognitiva e permitir uma resposta eficiente ao ambiente.

Tem um minuto para ouvir a palavra do Processamento Preditivo?

A Teoria do Processamento Preditivo sugere que o cérebro não analisa ativamente cada input sensorial de forma independente. Em vez disso, ele compara as informações recebidas com modelos internos do mundo, antecipando padrões e filtrando estímulos previsíveis. Quando um input sensorial confirma essas expectativas, ele pode ser descartado, pois não representa uma novidade ou ameaça. Apenas erros de predição—ou seja, discrepâncias entre o que foi esperado e o que realmente aconteceu—são elevados a níveis superiores de cognição para serem reavaliados.

Esse processo explica, por exemplo, por que você não sente constantemente o peso da sua roupa sobre o corpo (isto é, se você não for autista). Como essa sensação já foi antecipada pelo cérebro, ela é suprimida da percepção consciente, permitindo que sua atenção seja direcionada para estímulos mais relevantes aos seus propósitos.

Ué, mas que propósitos? Aqueles que você elaborou em contato com seus pares, pessoas com as quais se identifica, grupos aos quais pertence, e que dão, na falta de um contato objetivo com a realidade, a sensação de firmeza necessária à rede de crenças enviesadas que você chama de realidade.

Ou Como disse Morpheus no filme Matrix (1999):

“O que é real? Como você define ‘real’? Se você está falando sobre o que pode sentir, cheirar, provar e ver, então ‘real’ são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.” (The Matrix, 1999).

Antes de você me julgar por levar ficção a sério, devo lembrar-lhe que essa ideia da realidade como ilusão é atribuída a Platão, sobreviveu através do idealismo alemão (Kant, Helmholtz), e desembocou em nossa teoria neurocognitiva preferida, o Processamento Preditivo(PP).

O PP considera que o cérebro está sempre tentando antecipar uma realidade desconhecida, construindo um mapa desta realidade e confundindo realidade e mapa a cada passo do caminho. E não faz isso como se estivesse controlando um robô remotamente, enquanto boiasse em um tanque de nutrientes. Faz isso integrado a um corpo, incorporado. Sua inferência é ação, é palpação, como diz Friston, prefaciando um livro de Hohwy.

Concordando duas vezes com Skinner

Ou, parafraseando Skinner, somos organismos que mudam o mundo, que nos muda de volta. E cognição é ação. E ação é causa, quer você a veja ou não (esse sendo o erro principal de Skinner, em minha opinião).

Dado que tanta coisa acontece no mundo, e tão pouca coisa chega à nossa consciência, filtrar é perceber. Não somos resultados passivos dos acontecimentos do mundo. Não somos personagens secundários das tramas elaboradas nos grandes centros, pelos bilionários que nos escravizam. Somos potencialmente co-autores do drama humanos no mundo.

Saber que viés é percepção nos habilita a ver o nosso semelhante como alguém com quem se dança, não como um objeto passivo da nossa ação, autor ou culpado de nossos dramas trágicos. É necessário coragem para admitir o quão pouco sabemos do universo.

Para saber Mais

  1. Beck, A. T. (1976). Cognitive therapy and the emotional disorders. International Universities Press.
  2. Beck, J. S. (2011). Cognitive behavior therapy: Basics and beyond (3ª ed.). The Guilford Press.
  3. Beck, J. S. (2021). Terapia cognitivo-comportamental: Teoria e prática. Artmed.
  4. Jurgens, A. (2024). Master narratives: Ideology embedded and embodied. Cambridge: [Fonte acadêmica].
  5. Leahy, R. L. (1996). Cognitive therapy: Basic principles and applications. Jason Aronson.
  6. Leahy, R. L. (2006). Técnicas de terapia cognitiva: Manual do terapeuta. Artmed.
  7. Maiese, M., & Hanna, R. (2019). The mind-body politic. Palgrave Macmillan.Wachowski, L., & Wachowski, L. (Diretores). (1999). The Matrix [Filme]. Warner Bros. Pictures.
  8. Prigogine, I., & Stengers, I. (1984). Order out of chaos: Man’s new dialogue with nature. Bantam Books.
  9. Skinner, B. F. (1974). Sobre o behaviorismo. Cultrix.
  10. Varela, F., & Maturana, H. (1972). Autopoiesis and cognition: The realization of the living. Springer.

2 respostas para “Viés não é erro cognitivo, é apenas percepção.”.

  1. Avatar de Luis Reis
    Luis Reis

    Se a sua professora estiver certa, isso quer dizer que logo a profissão de psicoterapia será realizada por IA, que é bem mais competente na tarefa de seguir protocolos…

    Ironias à parte, excelente texto! A afirmação de que a TCC se baseia no senso comum é bastante forte, embora não surpreenda. Como diria Raul, cada um de nós é um universo, e essa “realidade consensual” seria uma espécie de máximo denominador comum entre eles.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de Transtornos Psiquiátricos não são algo que você tem. São uma maneira de olhar para você. – Psicologia Clínica de Fundamentação Neurocognitiva

    […] Mas para isso, precisamos entender, com o que temos de conhecimento acumulado, que as situações de saúde mental são determinadas por causas múltiplas. Não existe motivo empírico para privilegiarmos um plano de análise em detrimento do outro28. A psiquiatria consciente da própria história já sabe que seus diagnósticos são construtos de validade limitada, especialmente para pesquisa. Eles levam muitas vezes a explicações circulares, como as que denunciava B.F. Skinner. […]

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Sou Alexandre Costa

A imagem mostra um homem com uma longa barba grisalha e cabelo curto, usando óculos e uma camisa preta com o logotipo "Calvin Klein Jeans" estampado no peito. Ele está em um ambiente externo, com uma árvore grande e galhos densos ao fundo. A iluminação natural destaca o rosto e os detalhes da barba, criando uma atmosfera tranquila e natural. A expressão facial é neutra, transmitindo uma aparência calma e acolhedora. No canto inferior direito, há uma marcação de data e hora: "17 de jul. de 2024, 17:26."

Psicólogo Clínico especializado em autistas adultos, Supervisor Clínico Institucional da Casa da Esperança com mais de 30 anos de experiência com pessoas autistas de todos os nós do espectro.